jogar fora

aprendi a jogar entulhinhos fora. eles eram muito valiosos, se considerarmos as lembranças. mas com o passar dos anos tudo o que é acumulado acaba se transformando em poeira. no meu caso, eram pilhas e pilhas de poeira amontoada, impedindo as portas de se fecharem e as bolsas novas de terem – enfim – um lar espaçoso.

pratiquei a palavra mais famosa do momento: desapego. e foi incrível o quanto a minha sede por centímetros quadrados dentro do armário impulsionava minhas mãos a resgatar mais e mais objetos, mais e mais papéis. eu realmente tinha muita coisa guardada mas não fazia ideia de que era tanta. a surpresa de descoberta deu lugar ao suor do trabalho braçal e ali me rendi à celebração do minimalismo: quanto menos guardados, menos bagunça, menos aperto.

ao final do dia, conquistei meu novo império, meu novo domínio, meu novo orgulho, sintetizado em um armário típico de casa vogue. tudo organizado, entulhinhos devidamente armazenados em 7 sacos azuis e gigantes de lixo, franja molhada de suor e aquele olhar blasé que aprendi a lançar nesse desafio. jogar muita coisa fora é um processo evolutivo e fez com que eu me sentisse repaginada.

só não me peça para abrir os sacos de lixos e ver novamente os objetos e papéis ali dispensados. não evoluí tanto assim ainda, não, há o grande risco de eu catar algo aqui e ali e trazer de volta para dentro do armário…

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