procura-se uma história de cinema

procura-se uma história de cinema. ou fragmentos dela. procura-se aquela cena, com aquela frase e aquele olhar. algumas histórias se tornam tão reais porque contextualizam-se magicamente com a vida naquele momento. por isso, procura-se viver uma história de cinema.

a minha história não poderia estar no cinema, mas a do filme caberia muito bem em mim. a minha história não tem a emoção digna de aparecer em tantas polegadas assim, não. ela é simples demais para tal. os momentos belos não causariam inveja aos espectadores. meus passeios não são em paris, meus chinelos são de plástico. não falo francês, não vou a restaurantes iluminados por lustres de cristal, não tenho amigos tão próximos, não recebo cartas de amor, não ganho flores ocasionalmente, não recebo ligações telefônicas emocionantes, como acontece no cinema. o corte do meu cabelo custou 10 reais, minhas unhas são roídas e meus tênis encardiram depois de tantas lavagens. eu não tenho o emprego perfeito, não tenho a família perfeita, não sou perfeita. nas minhas imperfeições, sigo em frente, imaginando como tudo poderia ser diferente.

saio do cinema enxergando pessoas sorrindo pra mim. mas elas não fazem isso nunca, porque eu sou invisível quando caminho pela cidade. depois daquela história de cinema, entro num bar e peço uma coca-cola, querendo sentir aquela resfrescância que a mocinha sentiu. mas, bah, nunca tem gelo naquele bar e então eu bebo apenas metade de uma latinha. já quis muito ganhar aquela carta, que tinha aquelas duas frases capazes de mudar todos os meus sentidos. já desejei ver aquele menino atravessando aquela rua e me entregando aquelas flores amarelas.

mas as histórias de cinema nunca acontecem. elas começam mas se vão sempre. elas não permanecem e o novo torna-se um objeto de desejo. então decidi transformar a vida de outra pessoa em cinema. já achei a nossa história e todo dia é o dia de deixar a vida dele como a de uma história digna de cinema.

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