janelas

12 andares diante de mim. no elevador, uma tv bem fininha e atual transmite muda cenas de um homem bem gordo sendo marcado à caneta pelo médico que balbucia algo sem parar. cirurgia plástica. não me interesso e miro o espelho, com pressa. chego rápido ao destino e vou ao encontro do meu irmão, conheço seu novo escritório. o cheiro de móvel novo já faz parte do lugar. a vista deslumbrante me chama sem parar, desviando minha atenção para as gigantes residências e suas cortinas que mais parecem tecidas à fios de ouro. o bairro mais nobre da cidade está mais movimentado do que de costume e lá do alto posso ver as babás lendo tablóides enquanto suas crianças se isolam no pula-pula de cores primárias. não me apego ao momento e vejo a piscina de pastilhas monocromáticas logo à direita, límpida, parece que está sempre só, penso que quase nunca alguém se arrisca a entrar nela. largo aquela paisagem e decido ir até a outra varanda enquanto meu irmão volta para seus cálculos físicos. me atento à visão da janela do prédio vizinho de uma possível agência de comunicação – são muitos apples e jovens juntos. sinto vontade de entrar ali. ouço uma buzina contínua que vem de longe, cada vez mais estridente. me irrito. volto para o escritório e me divirto com o laptop. o entusiasmo dura segundos. o telefone toca e observo os poucos funcionários, todos com o semblante feliz, típico de final de expediente. olho para mim mesma pelo reflexo do vidro da divisória de setores e gosto do que vejo, não me sinto cansada, apesar do badalar das 17 horas. os ponteiros correm velozes no relógio. meu irmão mostra suas tarefas e eu, mais uma bobagem que vi essa semana na internet. meu pai liga no celular. família unida. o retorno à janela agora revela uma quadra de tênis. está deserta. e mais marrom do que a que via no clube que frequentava na infância. e ainda mais do que nos jogos transmitidos pela televisão. a cidade parece tão calma ali de cima, posso me tornar mais fortes e independentes ao mesmo tempo em que não me deslumbro com todo aquele império de prédios de mármore e granito. penso em voltar, cansei dos playgrounds e telas planas. despeço já com saudades do meu irmão. é hora de encarar mais uma vez a tv fininha. dessa vez, é uma mulher quem é marcada à caneta pelo médico. seu alvo são os seios. plástica dolorida essa, ah, eu sei que sim. esqueço o episódio, fito o espelho à procura de alguma novidade dermatológica. felizmente, nada acho. ando passando cremes religiosamente. uma mulher de meia idade entra rapidamente no elevador e olha fixamente o chão amarelo. não emite qualquer som, sequer de sua respiração. respeito seu desejo de invisibilidade e passo a não enxergá-la mais, somente seus sapatos pretos. e como são bonitos, salto meia pata, bem lustrosos, de catálogo. a portaria nunca me pareceu tão distante. o sorriso do segurança foi menos entusiasmado do que na entrada. a rua encheu-se subitamente de carros e motos. segui confiante rumo aos prédios. agora que os vejo por baixo já não os acho mais tão interessantes assim.

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