donos de si

ouvi silenciosamente a colega avisando no corredor do escritório, era fato: a moça havia entrado no bloco cirúrgico, tumor. meus dedos se debateram no teclado, frenéticos. entristeço mas nada esboço. por dentro, estou um bagaço. lembro-me da personalidade calma e da inteligência dela. clamo por sucesso, temo pela espera. sigo o meu trabalho. as pessoas chegam e com elas a teimosia em não dar o seu melhor. falam sobre os possíveis motivos que delinearam o triste fim da moça. uma magra senhora sensibiliza dizendo que nunca a viu marcar um exame médico nesses mais de vinte anos de amizade, onde já viu? e como seus olhos eram pálidos, meus deus… o homem do quarto andar desce zangado até a minha sala contando que certamente nunca conheceu pessoa mais triste do que aquela, oh, não. foram muitos os que falaram. muitas palavras, pesadas e de baixo tom. pousei meus olhos caídos até o chão, sem palavras. desanimei. levantei torto o pé direito na esperança de abrir a porta com a força da mente mas foi em vão. torci o nariz desejando que o relógio me contasse as horas do final do expediente. nada aconteceu, as pessoas continuavam a mal falar a pobre mulher. logo a mais discreta, dona da voz mais baixa, mais suave, dos telefonemas mais curtos e dos pratos mais coloridos do refeitório.

talvez as pessoas estavam motivadas a falar tais coisas por medo. medo de olhar para si mesmo. hipocrisia. não sei. só sei que tudo isso é bastante cruel. comentários assim deixamos na gaveta. falar tanto de alguém em tal condição deveria ser previsto em lei. ainda mais vindo de pessoas que ela considera amigas. não santifico quem morra, muito menos doentes. mas acredito na gentileza. gentileza é um dom, não se vende em livros, não se aprende na escola, não se vê pelas ruas. e, nesse momento tão importante, ela só precisa disso, gentileza. principalmente dessas pessoas, com quem ela mais se relacionou nos últimos anos de sua vida.

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