afônico

“não queira ficar afônica”. ele me dizia afoito. e eu imaginava como podia ser aquilo. perdera a fala numa tarde de verão decorrente de uma briga peculiar com o irmão mais velho. discussões geralmente são corriqueiras vide as grosserias trocadas facilmente na vida moderna. os meios proporcionam isso. ele nem se lembrava mais do verdadeiro motivo a que o levara a tamanho diagnóstico, somente pensava na falta que a voz fazia naquele momento. seu cérebro repetia velozmente a palavra, sua boca abria com vontade, as cordas vocais pareciam trabalhar no jeito mas nada de o som sair. angústia. saiu de casa. dois amigos vieram ao seu socorro, alto era o volume das palmas que ouviram ao pé da janela azul colonial. vizinhos ao menos servem para isso quando não se precisa de uma xícara de açúcar.

dessa vez não era desabafo. não haveria explicação, lamento, música, história, reclamação ou xingamento: silêncio e um olhar assustado revelavam o seu primeiro estado afônico. palidez fazia parte do quadro geral. tudo parecia novo e estranhamente curioso. este é um dos estados nervosos mais estressantes desse mundo até porque, vai saber, a que horas iria passar? sentou-se na pracinha principal do bairro. larga. crianças gritavam a todo vapor. nunca as invejou tanto. quis empinar uma pipa bem colorida, só de raiva. coisa que nunca fez quando pirralho – “suja a roupa”, desculpa esfarrapada da mãe. os amigos fingiam não se preocupar e contavam casos esporádicos, daqueles bem bobos, num misto de fingimento e solidariedade. não adiantou. ele tremia as mãos gélidas e apoiava seus pés com força no chão cimentado, tentando sujar a sola do tênis em vão. nada de a voz voltar.

horas se foram. resolveu distrair-se consigo mesmo. despediu-se dos amigos e caminhou por horas pelo bairro. tomou um ônibus e foi ao bairro vizinho. balbuciava pequenos “as” no ronco mais alto do motor do veículo. ouvia os primeiros indícios de volta. animou-se solitário. a primeira vitória, porém, só veio no outro dia, ao acordar. a voz estava rouca, mas sentiu como se estivesse de volta à vida. olhou para si mesmo e só enxergava a boca, rosada, com os lábios rachados, mordiscados, marcados pelos dentes. decidiu evitar falar naqueles próximos dias, pouparia a voz, assim não correria mais o risco de perdê-la. gritar, então, jamais, seria um crime, imagine só.

uma semana se passou. disciplinado, continuou firme na proposta de manter-se calado. animado com o novo projeto poupou a voz, usou bastante própolis e mel, não arriscou mais nenhuma discussão, tampouco respondeu a qualquer ofensa ou questionamento dirigido a ele. e assim o tempo ainda mais passou. e com o irmão nunca mais falou. para sua surpresa, veja só, de tão quieto até saudades dele sentiu. mas pelo menos afônico nunca mais ficou.

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