acordado

não conseguiu exprimir em palavras a resposta merecida para aquele momento. acordar de supetão, com palavras despejadas em alto volume, como que ossos fartos e pesados, nunca é divertido – além de ser bastante desleal. perderia todo aquele dia, o mal humor consumiria seus ânimos, deterioraria suas futuras escolhas. já estava acostumado a tudo aquilo, afinal, equilíbrio não era o forte das pessoas que o rodeavam, é verdade. já deve até ter passado da centésima vez, se é que alguém tem energia para contabilizar coisas assim. pós feriado já é difícil, havia pensado algo assim na noite anterior, temendo os “efeitos de segunda-feira” que estariam por vir.

sente-se dono da mesma história de seus heróis televisivos, quando algo de chato que acontece e acompanha outro algo que vem ao lado de outro que pode vir a ocasionar outro e assim por diante. sente-se preso em um cubo de obstáculos. mas o final é sempre radiante, os persistentes vencem e a moral da história é dotada de magia e muito sucesso. acreditava nisso. apegava-se a isso como se não houvesse outra coisa a fazer nesse mundo, aceitando complacente a todo desrespeito, noite mal dormida, crise de enxaqueca, briga de terceiros, o que fosse.

depois de muito tempo, porém, acorda mais uma vez em situação inusitada (deveria ser proibido por lei ter o sono desrespeitado gratuitamente, lamenta via pensamento). e é então que percebe que vã é sua tentativa de redenção, de nada adiantará seu silêncio, tampouco sua quietude. ela continuará a despejar as mesmas palavras vazias, originárias de uma egoísta – e absurda – neurose, que brota do sentimento mais primitivo que ela poderia ter. refletir já não é mais suficiente, provas sobre a fraqueza de seu coração vinham à tona. só restava a ele sonhar com um lugar bem distante de todo aquele antiquado cenário, um lugar capaz de apagar todas as manchas amareladas e tornar real algo que fosse especialmente seu, algo simples. é só o que ele queria: simplicidade dos sentimentos, das palavras, do café da manhã. tudo por um “bom dia” menos atribulado.

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