a curtos passos

abriu a porta de uma só vez como se fosse a última. o sol, fraco, mais parecia estar desligado. pessoas mantinham seus olhares para os próprios pés ao mesmo tempo em que fitavam a calçada. pensou em desviar seu trajeto, talvez seria uma alternativa possível para salvar aquele dia mas lembrou-se dos compromissos. todos aqueles marcados há semanas na agenda de capa azul marinho, todas as situações já esperadas, todos os horários estrategicamente planejados. quis desistir, quis correr. correr desengonçado pelas ruas cinzas, pular jardins floridos, chutar obstáculos urbanos. talvez assim conseguiria se esquivar daquele dia insonso, daquele sentimento sorrateiro de extremo cansaço, de todo o caos que estaria prestes a chegar. no fundo sabia que evitava o dia em uma tentativa vã de esconder de si mesmo. fingir que o café não parecera sem gosto, que a água do regador evaporara, que o telefone tocava cada vez menos. fingir que o tempo já não era mais um cúmplice, que as conversas já não estavam mais divertidas e as músicas já não contagiavam a todo ambiente como antes. respirou fundo. entrou em seu carro decidido a encarar toda a escuridão de sua realidade. abriu a porta de vidro do prédio comercial. encarou o hall de entrada esboçando um torto sorriso. sentou-se à mesa. telefonemas, computador, xícara de café. e mais portas para serem abertas.

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