o inevitável

jamie grill

fui sincera comigo mesma. aliás, sempre sou bastante, a “autocobrança” nunca me faltou – excesso de perfeccionismo. encarei os fatos pendentes e assumi o quanto tudo isso me incomoda, afinal, se não incomodasse, nem seria mais lembrado. a questão é abrir-se para o inevitável: meu coração foi posto como artigo de decoração em um jantar de luxo. ele não apenas se partiu, como também se foi. criou vida própria e deixou o meu peito vazio. a fratura ficou exposta e tudo ao redor parecia ter se tornado um lixo. foi difícil. perder a confiança naquilo que você sonha é difícil. ver o mundo desmentindo todas as suas crenças é difícil. sei que a dificuldade na época foi em lidar com a verdade que, com nobreza, me libertou da ilusão mas revelou a mentira. ter sonhos surgidos de um engano nunca é fácil, ainda mais quando se tem espírito jovem.

fui ingênua. e isso me enraivece. mas o que é a maturidade senão lidar com o inevitável, aquilo que deve acontecer para abrir os nossos olhos e nos tornar pessoas melhores e mais fortes? sim, frases como essa podem até se tornar um mantra para os que sofrem, mas assumir a decepção e o quanto isso fere o orgulho próprio também deve ser uma forma de redenção. há anos já não ligo mais. nunca me importei com os sujeitos do acontecimento, tampouco preocupei-me em saber sobre o que aconteceria para todos eles dali pra frente. desde o primeiro dia o que restou foi apenas o meu interior, olhar para mim mesma e encarar o fato de que tudo aconteceu porque eu permiti. o inevitável simboliza o passaporte requerido para que eu conquistasse o que tenho hoje, já foram desmembrados todos os detalhes e causas dessa ação, não há nada mais a ser dito. só me falta aceitar a minha antiga fragilidade, que foi assassinada a partir do momento em que percebi até que ponto as pessoas são capazes de chegar a fim de mentirem para si mesmas.

ganhei um novo coração. com lembranças definitivas e alegrias guardadas. ganhei um novo sentido diante da vida, voltei a respirar ar puro. já não mais caí nas velhas armadilhas e agora voltei a acreditei nas pessoas. tenho a verdade gravada na pele e um sentimento de honra cada vez mais apurado. o que mais poderia querer? só mesmo agradecer o inevitável.

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