o meu primeiro dia

no primeiro dia do ano vou comprar um par de luvas. vou ter que treinar boxe semanalmente e isso já é um fato. nada de esteira empoeirada mais. tenho um encontro marcado com uma vida longe das longas horas em frente ao computador. preciso mexer os braços, as pernas, a cintura. prometo menos compras parceladas, pretendo menos bolsas. todo o arsenal de roupas e acessórios já me valem por uns cinco anos. pra quê acumular coisas? no primeiro dia deste novo ano vamos continuar com nossos planos, vou cultivar os e-mails de amor que faço para o meu namorado, vou mandar sms para os melhores amigos, vou dar uma folga para os meus pais. chegou a hora de continuar essa dieta maldita, porém certa. quem sabe este ano consigo escrever mais na minha agenda novinha em folha, atividade que me era tão simples de ser feita há anos. este é o mês que renova as minhas vontades e, pelo menos deveria, acordar os meus ânimos para causas urgentes. é agora que vou solidificar a minha personalidade, acreditar no que consigo fazer, aceitar os meus desejos.

nada vai me impedir de progredir, de rir mais do que não tinha graça, de deixar à vista o problema e não mais apagá-lo com corretivo. o ano novo existe para nos encorajar a jogar fora as borrachas, não quero mais ter que apagar os erros dos outros, quero somente rascunhar meus motivos com caneta colorida por cima do lixo. este é o primeiro dia de muitos outros em que jogarei glitter por cima de tudo, em que farei acertos e agradecerei as faltas. é onde continuo a acreditar no já desacreditado, em que me agarro ao que já tenho de bom, em que levo junto comigo quem de bom coração ainda existir nesse mundo perdido. mesmo que seja cedo para abraçar o futuro, isto demora um tiquinho, já é tempo de construir mais degraus de mármore azul para chegar até lá. não deixo mais ninguém atrapalhar esta construção, não quero mais moscas insistentes em cima do meu pão de creme.

é apenas o primeiro dia da certeza de que tudo está no lugar em que deve estar. é só um alento para continuar firme, focada no pouco de pureza que me resta. não há o que temer, nem o que contestar. não tenho mais nada a provar para ninguém nem desmentir o que erroneamente foi dito. neste dia, já não me importo mais com a injustiça, nem com o infortúnio. cheguei até aqui só para sentir o que há de mais correto nessa vida, só o que há de mais sagrado. e todas as aulas de boxe já estão marcadas, pelo menos neste primeiro mês de mais uma vida nova.

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