pés descalços

olhou pela janela e viu nuvens cinzas se formando. “vou ter que sair, nem que sejam 40 minutos, antes do previsto”, pensa. seus cabelos estão presos por fitas vermelhas e nos pés traz rasteirinha furta cor. o brilho dela vai desaparecer com a água. os pés vão escorregar no meio-fio,  “é como se eu estivesse descalça, não há segurança”, assusta. lama, lixo, água suja pelas ruas, não quer enfrentá-los, pelo menos não hoje. a chuva que nunca cai em sua cidade insiste em aparecer durante todos os dias das últimas duas semanas. imagina o mar, a praia ensolarada, as crianças ornamentando castelinhos de areia. “muito improvável uma data para que isso aconteça”, mergulha nos relatórios. nada é fácil, tudo é complicado, desfila por entre copas gigantes de árvores com mais de 70 anos. a maquiagem da noite anterior deixa rastros, mesmo com tantos cremes que prometem não permitir isso. quer telefonar para o sac e destilar toda sua fúria com um atendente sem sorte. desiste, “mais fácil trocar de marca, mais fácil não mais sair assim”. a caixa de e-mail parece gritar remetentes desconhecidos, ignora. aprendeu a não dar atenção a estranhos, justifica. as nuvens se formam cada vez mais gordas. se revelam ainda mais escuras. pensa em ligar para alguma boa alma, que ofereça carona e galochas. essa pessoa não existe na sua lista de contatos, desanima. volta a olhar o céu. um sol claro, fino, tímido se revela pela persiana. “mentira, as nuvens vão vencer essa luta”, diz a si mesma repetidamente. desliga o computador, pega a bolsa amarelo ouro e se vai pelo vento gelado que ganha força no corredor de asfalto. “coragem, de açúcar não fui feita”. pingos pesados caem a esmo. a fita quase larga seus cabelos. o pé já está frio. de nada mais importa aquela chuva, destemperada chuva. só lhe resta deixar a água tomar conta de seus ânimos.

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