nem tão novo assim

já deixei de gostar de muitas coisas nessa vida. como o quiabo, por exemplo. as garfadas cheias ficaram pra trás. mas também passei a gostar de muitas improváveis, como vagem. posso passar o dia comendo os talinhos verdes, se possível. não consigo mais me imaginar falando horas a fio no telefone, troquei o aparelhinho falante pelo pessoalmente. nem fico mais na rua até o sol nascer, optei por aplicar cremes faciais e dormir tranquilamente. os destilados e seus efeitos atômicos agora disputam lugar com os litros de água diários e os sucos naturais. a corrida em busca de mais uma bolsa e sapato perfeitos deram chance à outro tipo de atividade física, a academia. deixei de gostar daquela então amiga, daquele meu vizinho, de todos aqueles bonitinhos. já gostei tanto de assistir cartoons que só fazia isso da vida; hoje não tenho paciência nem pra 10 segundos deles que for.

já deixei de usar muitas coisas desse mundo. como o meu inseparável discman. hoje, nem cd se compra mais, quanto mais um eletrônico grande ambulante. faz tempo que troquei a mini jeans pela bermudinha xadrez, o brinco pelo alargador, o tênis pelo salto alto. não quero mais usar aparelho dentário, jaqueta da hard rock cafe, nem franjinha de lado. acabei trocando o chá pelo café, o pudim pela gelatina, o uniforme escolar pelo blazer.

sem me dar conta, transformo meus gostos, transfiro meus desejos, alimento minhas paixões. vivo a reinventar meus moldes, meus segredos. hoje tenho uma nova forma de falar bom dia, de tirar fotos, de abrir uma lata. mas amanhã poderei encurtar distâncias, reciclar plástico, ouvir aquela música. quero escrever à caneta, desenhar com giz de cera, desentulhar a máquina obsoleta. outro dia brinquei por 5 minutos com a minha barbie e ainda confeccionei uma roupinha nova. depois, quero voltar a montar mini cidades e imaginar grandiosas histórias. a verdade é que tudo isso nem é tão novo assim. reivenções de si mesmo são pretextos para saudar o antigo e criar algo novo repetido. cessar um pouco da saudade dos tempos queridos. lembrar de você mesmo, e do quanto já sabia que era feliz.

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