a ida dela

perdeu vida ao temer a ida dela. não comparou ondas do mar na casa de veraneio nem escolheu frutas no outono. não conheceu os filhotes que nasceram há pouco no canil vizinho, não ouviu a música nova daquela banda divertida nem comprou mais sua revista preferida. esqueceu seu guarda-chuva no balcão de alguma loja, deixou de usar o seu tênis mais bonito. perdeu o primeiro capítulo da nova temporada do seriado que há anos acompanhava, deixou pra trás seu chaveiro colorido, passou a tomar banho de chuveiro bem frio.

uma tropa de pensamentos renderam suas emoções. todo o tempo era dedicado à inevitável despedida. vivenciava cenas, motivos e argumentos para tal acontecimento. parecia viver a esperar pela saudade, tristeza e decepção, era expert em guardar tantas possibilidades numa só imaginação encaixotada. tinha criado até data, tamanha era a riqueza de sua intuição. o dia em que ela iria embora seria ensolarado (mas com poças d’água pelas ruas, estamos falando aqui de um “pós-chuva”), os cabelos ficam ainda mais dourados sob os reflexos do sol. o rádio estaria ligado e imediatamente tocaria bossa nova; e ela canta uma como ninguém. as paredes da casa derreteriam feito manteiga na frigideira e as nuvens pareceriam mais um pedaço de papel amassado, nada de algodão. em direção à porta, ele estaria ali, fixo, a observar a ida dela, que andaria de modo torto, quase falso, titubeando pelo chão de madeira antiga que range como dentes enjaulados.  nenhum olhar lhe é lançado, nada fica para trás; ela segue pelo corredor amarelo desfilando solitária em direção às ruas que, de tão molhadas, mais eram espelhos do céu.

não receberia nenhum telefonema, e-mail, aceno de esquina. essa seria a ida dela. nunca mais a viria saudar, correr, dar de ombros. suas manias não encheriam mais a casa de vida tampouco seriam lembradas. as toalhas bordadas, as pulseiras prateadas e as meias coloridas seriam esquecidas no fundo da gaveta do armário desfeito. nada mais voltaria a ser como antes e o depois voltaria a ser seu maior inimigo, a velha prisão de sempre.

o medo daquilo tudo tomou conta e seu impacto era real. nada mais podia fazer, ele sabia que ela iria embora, sempre soube, fácil veio a mágoa dessa ida por tanto tempo. difícil seria distinguir o real do provável. a ida já estava marcada para algum dia e, junto a ela, a esperança de sua volta também.

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