garotas perdidas

cochichos silenciosos brincavam nos meus ouvindos enquanto as mãos geladas passavam por entre os cabelos. o assunto era coisa de criança, mas ao mesmo tempo, deixava transparecer um desejo incessante de nostalgia e falta de pudor. o olhar curvado, as sobrancelhas tortas e as unhas roídas combinavam com as paredes escuras cheias de panfletos sujos, marcados pela fumaça da rua. todos ao seu redor achavam a palidez de seu rosto um charme, uma beleza escondida, que pedia para ser descoberta. as tardes de sábado eram mais felizes por causa da presença dela. suas meias cor-de-rosa destoavam de seu cabelo escuro, quase negros. ouvíamos os vinis do irmão mais velho sem entender ao certo o que aquilo representava e adorávamos. era como um sinal de liberdade, uma atitude diferente, um clima novo, um momento único. se nos encontrarmos como antes, agora, nada será tão delicioso, porque o tempo consegue apagar o brilho. e certamente não mais falaremos de fantasias e contos dadolescentes, muito menos jogar dadinhos coloridos. seremos meninas mais amargas, mais cansadas, menos ingênuas. seremos mais crueis com nosso próprio interior, mais rabugentas do que nunca, menos simpática com o mundo. os braços fracos com a pele vermelha de sol não suporta mais sustentar tanto peso.

nós só queremos tomar suco com açúcar cristal no fundo do copo, falar bobagens até o dia começar, abraçar como se não fôssemos mais estar juntas, fumar um cigarro barato qualquer escondidas de tudo, subir no velho muro ao lado de casa e ver os meninos grafitarem qualquer mensagem estranha que for, falar horas ao telefone para não esquecer os fatos do dia, cuidar uma da outra para não ficarmos tristes, beijar nossas bochechas e aliviar a nossa solidão, fingir que somos meninas-adultas e olhar para o máximo de meninos bonitos, maquiar nossos olhos para agradar nossa boca, contar pra mamãe o que ouvimos das amigas, chorar de raiva e descontar tudo no primeiro ouvido disponível, lamber um sorvete enorme com calda de morango, gritar no meio da rua aquilo que a gente quer dizer pro mundo, chupar o maior número possível de balinhas de creme de uma vez só, tirar fotos sem nexo para nos sentirmos mais intelectuais, ler gibis com as mãos na boca, roer cubos de gelo com os dentes escovados com pasta de tutti-frutti, inventar uma receita qualquer na cozinha, criar coragem de ser eternamento nosso coração e nos arriscarmos mais, nem que seja pra levar somente um “não”.

*texto publicado no meu blog antigo em 10 de setembro de 2004

Anúncios