percepção

cuidando para não mais viver aquele dia, não sentí-lo entre seu arquivo de cheiros e sons. tratou de aquecer as mãos gélidas na lareira, sentou-se ao lado de si mesmo, procurou por ninguém ao redor. sentiu-se confortável ao perceber que não mais seria capaz de reconhecer aquele momento, não poderia vivenciar aquelas memórias. trocas foram feitas, sujeitos perderam a face, encontros desmarcados. nada mais voltaria a ser como antes e isso rendia a ele um grande alento. com isso sabia que era invencível, orgulhava-se por ter conseguido, sabia que à sua porta jamais bateriam. o ciclo se completou e anos se foram com a tranquilidade de um rio de água doce.

seu novo ser respirava por certeza, confiança e senso. suas histórias tornaram-se poesia e a tristeza tornou-se uma velha desconhecida. passou a enxergar além daquele quarto, daquela cidade, daquele ano. pôde se enquadrar em uma envolvente teia de soluções. não se emaranhava mais em prazos, medos ou fraquezas. seguia adiante os trilhos da locomotiva de containers há tempos empoeirados. agora ele fazia acontecer. rumou firme, crédulo, avante.

percorrendo pelo amanhecer encarou seu próprio reflexo. percebeu. nada nem ninguém poderia tirar de si mesmo a redenção nem mesmo sua verdade. foi ao destino de um homem feito, com decisões certeiras e manias desfeitas. enterrou aquele que um dia acreditava ser e transformou-se naquele que trabalhou duro para enfim poder. acaso. nada poderia substituir o bom que o acaso desejou, nada poderia desfazer a novidade nem o agora. seu hoje tornou-se o certo, fez o melhor para que seu dia chegasse e ele finalmente surgiu. não há mais amarras, não há mais o falho, não há mais dúvidas. o apogeu é mesmo assim: uma nuvem densa de paz. um amor para compartilhar. uma brisa para refrescar. um pedido de desculpas para si mesmo por ter tentado sem esperar nada mais do que a realidade.

e ele finalmente entendeu do que são feitos os sonhos. e de como a entrega rende bons frutos. por mais que os tempos difíceis teimem em aparecer vez ou outra ele se agarra ao que tem de melhor, aos presentes que sua trajetória lhe rendeu. e então agora ele pode escrever nos seus papéis soltos pela gaveta o quanto é grato pelas memórias. só não o peça para que as conte. porque esquecê-las faz parte da natureza da construção de seu presente.

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