quando emília foi embora

simply hue

depois que emília se foi, ele tornou-se leitor. devorava livros de todos os tipos e estilos literários que possam existir nesse mundo. passou a beber leite diariamente, aprendeu a comer vegetais coloridos, matriculou-se na natação. no fim de tarde daquela sexta-feira agitada em que emília decidiu partir, ele encontrou com o pior de seus pesadelos, abriu mão da esperança, esqueceu a definição de amor, desconfiou de todos à sua volta. passou a beber em todos os bares sujos das ruas omissas de sua cidade, a ficar acordado ouvindo blues, a manipular quem por sua frente passasse. ele iniciou uma guerra solitária contra tudo.

quando emília o deixou seus pés já não mais sentiam o chão e suas mãos agora eram trêmulas, seu fôlego se perdia com o vento, seus olhos marejavam. emília levou consigo toda a confiança que ele fielmente passou anos construindo. levou a crença na humanidade, a sorte de um passeio feliz, as polaroides ensaiadas, o tênis de cano alto marrom. com emília se foram as notas musicais, o doce exótico de frutas desconhecidas, as fotos mal focadas, os cds dedicados, as cartas amassadas.

depois que emília foi embora muito pouco restou. ele teve que reaprender a viver. sentia uma dor profunda não por falta mas por excesso. tornou-se companheiro do álcool, das noites mal dormidas, da descrença. não podia mais encarar o espelho e seguir adiante, não, pois emília levou também a dignidade. a dele e a dos outros.

pouco sobrou após a partida de emília. pouco se falava em emília. muito se foi entre suas malas estampadas de incógnitos bichinhos. e ela não mais voltará, nem contará seus devaneios bem elaborados, nem reunirá todos aqueles amigos num só lugar. sem emília muito deveria ser feito enquanto antes, só o pouco bastava.

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