alinhamento

laura rounds

fui ali escrever a nossa história, dia desses.

e foi uma delícia contabilizar cenas, rearranjar imagens e distribuir contos. embaralhei nossas palavras, como se faz com cartas de baralho, e acabei tropeçando em frases. foi aí que ri bastante com todos aqueles fatos inventados, aquelas ideias desfragmentadas, aquelas piadas sem graça. temos mesmo muitos momentos ímpares, daqueles que nos lembram de vez em quando quem somos de verdade – e por isso damos conta do inimaginável. nossa história tem faíscas, pedras azuis e muito chão de terra que subimos juntos. desde a enlouquecida (e por vezes utópica) vontade de seguir adiante até o alívio de aceitarmos somente acreditar. e assim acreditamos sem duvidar mais. ultrapassamos limites estabelecidos por sabe-se-lá-quem, combatemos o mau humor com músicas inventadas, decretamos feriado nacional o dia em que passeamos pela primeira vez. nós fomos dois desde o início. alinhamos nossos corpos rente ao fio de luz que surgiu em nossa frente naquela tímida noite de maio. foi uma chance. única em um milhão de pontinhos luminosos e sabíamos disso. nos agarramos ao acaso. e lutamos todos os dias contra tudo o que impeça nossa certeza.

a verdade é que fomos corajosos ao começar a nossa história. naquela época nada tínhamos tampouco esperávamos o que quer que fosse. éramos dois com um coração incompleto. estávamos cegos para as flores, eufóricos com a noite, cansados demais para começar, impossível pensar em recomeços. e foi justamente sem planejar que ganhamos muito mais do que podíamos imaginar. construímos uma trilha novinha em folha para seguir sem drama. escrita todos os dias, a nossa história só existe graças a todas as boas lembranças que você fabrica pra mim logo que desperta para a realidade. gosto de tudo o que está nesse nosso livro de páginas infinitas. com a nossa história sempre sinto saudades da última estação.

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