imersão

heather landis

viveu à espera de algo que fazia tudo valer a pena. esse algo era o seu combustível, foi o que o convenceu de que existem chances e recomeços. sim, poderia acontecer, acreditou que tudo seria diferente mesmo lembrando-se às vezes de que sempre há um talvez nos capítulos de sua vida.

cegou sua razão para a realidade – tinha um talento incrível para esperanças – e seguiu confiante no amanhã, por muito tempo sem temer os riscos. mas sempre há o começo do fim. e tinha talento também para reconhecê-los. uma voz interior o alertava quando o improvável marcava território e, para sua angústia, ela estava certa. e então é chegada a decepção. o descontentamento com o outro, com a vida, com si mesmo. a constatação de que está imerso em um acaso definido por infortúnios, fechado por ilusões, rodeado por conflitos.

nadava contra as ondas mais fortes. até um certo momento de sua vida agarrou-se àquilo que chamam de fé. só que até ela pode ser levada pelas águas, assim como seu coração podia se partir em vários pedaços. tudo parecia tão errado, tudo o que fazia era em vão. o mais fácil parecia ser a fuga. vacilou quando notou-se vazio. cansado, viu-se sozinho em um jardim transbordando em flor. a realidade insistia em salvar sua mente. a vida gritava por socorro.

e essa seria sua última tentativa. optou por se render às regras do jogo. revoltou-se contra si mesmo, jogou fora todos os sentimentos que esculpiu ao longo da infância, desacreditou de uma vez por todas e distribuiu as cartas sobre a toalha estampada. da próxima vez nada seria diferente. tudo seria como de fato é. só que ele não estaria mais ali para sentir.

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