o abalo do mundo

mark watson

o meu mundo se abalou e nada ao redor poderia ter se dado conta disso. o vento orquestrava um inédito som, as hortênsias floresceram em seu maior azul, os carros aumentaram seu número nas grandes vias, as famílias seguiam tirando seus retratos no parque da cidade. o meu mundo se tornou escuro e tudo lá fora pareceu ganhar luz. os sorrisos cresciam ferozes nos rostos desconhecidos, as crianças aprendiam mais uma letra do alfabeto, um novo pôster foi afixado na entrada do cinema, as pipocas pulavam confiantes no carrinho branco da esquina. o meu mundo se foi como algo antigo se perde no tempo e tudo o que existe fora dele reluziu como novo. as estrelas daquele pedacinho de céu agora se formam em 15, o relógio mostra desenhos no lugar de números, as pinturas brilham como raios de sol. o meu mundo ameaçou seu fim por este dia. um dia que pareceu não ter fim, que mais pareceu sugar todas as horas do universo só de pirraça. muitos acharam que o meu mundo é pequeno para tanto; outros acharam exagero. mas só no meu mundo o verde de fato o é, os sentimentos são ditos tão facilmente quanto sentidos, a convicção é mais forte do que o traiçoeiro. no meu mundo não há lugar para o vazio, nem para as aparências. ele não tolera o hipócrita, o materialista, o falastrão. ele está centralizado em um mar de incoerências, boia sobre a poluição, está à margem da contaminação.

bastou um dia para ter os sentimentos do meu mundo destruídos, amassados, queimados em carvão. foi neste mesmo dia que o meu mundo seguiu em tropeços, sufocado por tanta ilusão. sonhos se tornaram provas de corrupção, a ingenuidade mostrou-se envolta em máscaras coloridas, a solidão se revestiu em couro marrom. em um dia o meu mundo tornou-se frágil, solitário em meio a uma teia de poeira escondida por tinta colorida. um ato justificado por um milhão de desculpas esmagou o coração que pulsava o meu mundo. e foi aplaudido por mais de um milhão de fracos. todos tão distantes do meu mundo.

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