sopro

aileen orticio

a dor aparecia sem aviso. dava seu sorriso sarcástico a qualquer hora, por qualquer coisa. abrir os olhos pela manhã doía; a luz que emana da dor é absoluta, consegue ser mais forte do que a do sol. abrir os olhos significava mais um dia em companhia da dor. suas marcas eram cada vez mais profundas e seu poder, controlador. poucas vezes conseguia distrair da realidade que a dor impunha, se livrar de suas garras era impossível. o dia era perdido pelas lembranças, a tarde dominada pelos impulsos e a noite controlada por seus segredos. machuca saber que por algum tempo ela esteve ali, latente, exposta. a experiência ao seu lado é inesquecível. vez ou outra me recordo dos dias difíceis, das barreiras diante do novo batendo à porta, do seu impedimento diante das oportunidades. são manchas que a dor não consegue apagar. além de ferir, ela te freia diante da chance de redenção.

muitos anos se passam mas as memórias surgem como um sopro em faíscas, brincando com nossos sentidos. fazendo um balanço do que a dor causa descubro, porém, que apesar de estraçalhar os nossos sonhos mais doces, ela não é onipotente: muito do que é belo permanece, tudo o que é verdadeiro segue intacto dentro de nós. essência e força são combustíveis que nos tornam únicos e, afinal de contas, nos assegura contra o mal. hoje só sinto vontade de agradecer. pelo dia, pelo amor, pelo céu límpido, pelas flores (ah, como adoro as flores). agradecer pelo que ficou. o que ficou de terno, de puro, de verdadeiro, de bonito. e agradeço ainda ainda por ter sempre um braço tão amigo que me faz acreditar que a dor está bem longe daqui, bem longe de nós dois. com você posso acreditar que os esforços por uma vida realizada não é em vão. que a felicidade pode ser permanente e que surpresas como as de antes serão superadas por outras tantas agardáveis. nós dois seguimos deixando as velhas memórias pra trás e criando outras tantas coloridas.

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