foi-se o tempo

dimitri vervitsiotis

perdi um tantão de coisas pelo caminho e não vou encontrá-las jamais. não vou remontá-las por não as querer mais. ou talvez nunca as quis de verdade. deixei todas essas coisas escorrerem por entre meus dedos, caminhei por entre terra batida sem enxergar muito além do que estava ali. não quis. li por aí que nunca se perde o que se é verdadeiro e achei tudo isso um tremendo equívoco. se foi real pra mim, verdadeiro o é. e ainda por cima para sempre. não é preciso o para sempre para se viver a realidade. não precisei da eternidade para vivenciar tudo o que tive. foram momentos únicos, incapazes de copiarem outros que aconteceram antes. são fragmentos de um momento real, de um tempo remoto, preso no emaranhado das memórias e, claro, muito fácil de perder. tudo nesse mundo se mostra frágil o bastante para ser perdido, tudo ao meu redor é muito grande. a perda incomodou por um tempo. um século talvez. mas em um dia apenas ela se tornou faísca, o pequeno instante de lembrança que se torna alento. de todo o drama e guerrilha restou somente a brevidade da nostalgia aliada a uma indiferença fantasmagórica. os batimentos cardíacos diminuem ao passo que os anos se completam. reconhecer seu andar torto pelas ruas já não é mais tão simples quanto há 10 anos atrás. imaginar um diálogo é perfeitamente possível, desde que fixado em amenidades tediosas. tudo mudou. você se foi em um céu chuvoso que varria as ruas com a força de um furacão. eu deixei todas aquelas pessoas seguirem outros ares em uma tarde primaveril. perdi um tantão de abraços mas isso não me parece um problema. perdemos tudo aquilo o que é possível para encontrar, enfim, o que desejamos eternizar nesta vida.

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