memória atrasada

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sempre chega o dia em que tudo aquilo que você desconfiou torna-se constatado. é a fase das revelações. um ponto passa a ser real e conecta-se a outros milhares de pontinhos, responsáveis por tecer toda a trama revelada. são memórias atrasadas, que demoram a chegar, devastam toda a sua fé em um mundo estranho ao mesmo tempo em que mais parecem velhas conhecidas de sua mente, filha da intuição, a companheira latente de uma mulher que se preze ser mulher. no dia a dia você faz de tudo, tudo mesmo, para manter-se saudável, com a cabecinha sã e é muito legal sempre, para que a vida seja o mais leve possível, mas nada disso parece funcionar. e acontece super rápido, pode ser em fração de segundos, o caos se instaura poderoso e, o mais difícil, sem culpados, sem reis ou rainhas. ninguém tem culpa nunca, afinal, são cabeças diferentes, vivências peculiares, famílias distantes. pensando assim fica até bem fácil e indolor perceber o quanto é comum viver entre desencontros, crescer em meio a expectativas esmagadas por tão pouco e ter que encarar que, no final das contas, são as perspectivas divergentes as manda-chuvas de tudo de confuso que acontece no dia mais simples da gente. não me sinto triste ou angustiada, cansada ou enraivecida. não encontrei motivos para definir sentimentos, há muito aprendi a analisar friamente os momentos que exigem racionalidade para manter minhas artérias funcionando corretamente, sem alterações. são apenas pensamentos, muitos deles, na verdade. são sempre sinceros, rígidos, austeros, mas são muitos. a eterna fixação por conectar fatos torna-se não uma neurose mas um exercício de profunda dedicação a uma nova versão de mim mesma, sedenta pela capacidade de sobreviver a um mundo doente com extrema disciplina. não sinto saudades de mim, estou em dia comigo mesma. estou a plenos pulmões fazendo dar certo, sem sacrifícios, as coisas apenas acontecem e faço escolhas para que o bom prevaleça. às vezes só queremos um alento, um pequeno prazer para seguir em frente, um fragmento de sonho de infância que, acredite, é o que há de melhor e é a única coisa que faz sentido na vida. você pensa que não entendo o que sentiu naquele minuto; eu penso que o velho problema resurge justamente nos momentos em que mais preciso de você e novos pontinhos ascendem em nossas cabeças. desencontros que poderiam não existir quando estamos despreparados, pequenas solidões que clamam por nossa atenção principalmente no final de semana em que os amigos mais contavam com a gente, pensamentos vacilantes que alteram o bom humor justamente quando estamos no circo e todos esperam nossa gargalhada. em momentos assim bagunço minhas gavetinhas mentais por completo e isso é mesmo muito chato. são anos de crescimento que dobram de tamanho e causam dor nas costas, tamanho é o peso da responsabilidade. já disseram por aí que nada disso é racionalmente explicável: nossa existência se refugia na superfície daquilo que definimos como “o mundo é mesmo assim”. e talvez seja só isso mesmo e todo o caos tenha sido instaurado pelas tais memórias atrasadas. sou feita de pequenos atrasos, de infantis desejos e de uma vida muito feliz. mas nem por ter tanta felicidade acumulada por aí estou imune ao atraso. alguém sempre vem bater à porta e bagunçar as gavetas, fechadas a sete chaves. só não vou fugir, nem entender, quero mais é te dizer que em nada pensei, que eu nada mais sei e que eu aceito que a nossa vida é apenas igual a tudo na vida.

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