carta para a vida

prezada vida,

eu estou com muita raiva de você hoje. sei que você tenta me comprar com nuvens brancas e docinhos de festa de vez em quando mas preciso mesmo te avisar que a situação se complica muito quando você permite que o meu coração se parta. tudo bem, sei que essa ladainha não é de hoje mas, puxa, dá pra me dar um desconto de pelo menos uns 50 anos? fica como pagamento pelas vezes em que você simplesmente apagou as luzes e fechou a porta. ou então pelos dias em que você estava de mau humor e, só pra dar uma descontraída, deixou de me avisar que ia cair uma tempestade bem cinza logo quando decido sair sem jaqueta. ainda estou bastante chateada com a sua completa ausência aos finais de tarde dos domingos. é um absurdo você aparecer às segundas, fingir que está tudo bem e, dias depois, desaparecer quando mais tenho tempo livre. tudo bem me deixar sozinha de vez em quando mas seria bom receber sua visita colorida quando a minha janela está fechada. isso sim seria decente da sua parte, vida. sinto sua falta quando tudo parece não ter sentido e, mais ainda, quando você não dá nem uma palavrinha amiga que seja nas partidas. já contei com sua bondade e sei que pode me oferecer mais, vamos lá, se esforce só um pouquinho para mostrar que todas as excentricidades que despeja em mim servem para alguma coisa. sabe, cansa bastante valorizar suas atitudes enquanto tenho que vestir o lenço que você colocou nos meus olhos. em dias como esse, preciso de uma pista que seja para que eu saiba como andar por essa trilha maluca a que fui chegar. por aqui é tudo muito novo e desprovido de informações. você é muito misteriosa, vida. e a diversão em desvendar seus planos já está acabando, faz muito tempo que trabalho para descobrir seus joguinhos e, sinceramente, o mínimo que deveria ser feito seria receber um mapa seu por tantos anos de dedicação por mim oferecidos. mas olha, já fomos felizes juntas, lembra-se do dia no borboletário? da primeira vez em que vimos o mar? do primeiro ursinho que amamos como filho? daquele nosso sorriso largo quando toca a música preferida no rádio? ah, vou te convencer agora: pense nos olhinhos brilhantes da nossa sobrinha quando nasceu. não foi muito legal? mágico? sensacional? nosso coração quase explodiu. até na valsa da primeira formatura que tivemos nós duas brilhamos tanto que sentimos muito medo de a noite acabar. sei que você gosta de ficar ao meu lado em momentos assim. que nem quando a gente ficava horas na piscina da casa da tia marta e nada parecia nos atingir. ou outro dia mesmo, naquela sexta em que fomos juntas ao cinema com a mamãe e demos gargalhadas super altas com woody allen? bom, diante disso, vou ser bem direta com você: quero que volte rápido. é isso, vida, não é justo você ter feito suas malas e ter pego aquele avião sem antes sequer me avisar. sua vontade própria está fora de controle, parece que enterrou nossas alegrias em alguma espécie de cápsula do tempo… não acho justo e exijo uma resposta imediata para este protesto. enquanto você está visitando museus na europa os meus dedos ficaram presos a uma corda bamba de material mais fino do que nylon. não sei porque está fazendo isso comigo mas se eu descobrir que essa viagem tem a ver com aquele pergaminho velho em que você insiste escrever o meu futuro sem nunca ter me consultado antes vou ter que dar um jeito de ir atrás de você pessoalmente. sem saber notícias suas o dia fica nublado e meus ouvidos surdos. eu sou sua dona, meu deus, onde errei que te deixei tão malcriada assim? volte o mais rápido que puder, faz favor?

desde já agradeço sua atenção. no aguardo, mariana.

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