ter coragem

elisa ursalas

ter coragem é para poucos. para segui-la é preciso mais do que força: sua urgência exige esperança. o coração pálido não dá conta de seguir em frente simplesmente porque a dor de seu vazio faz com que todas as coisas boas que ele poderia sentir se tornem cinzas. não há coragem no egoísmo, não há coerência no solitário. sua dor canaliza sua própria destruição e o leva ao mundo do superficial. a futilidade torna-se morada e todas as atitudes se tornam medíocres em um humano devastado pelo monstro de si mesmo. o corajoso reconhece a trilha bonita de um filme, grifa um trecho revelador do livro de poesias, vê no outro o amor da gratidão. são os olhos brilhantes diante do novo, as mãos sobre a fragilidade de uma flor, a sabedoria de um futuro promissor. a coragem desenha os sonhos, inspira a sede por conhecimento, fortalece o cego. assumir seus riscos é gritar para o mundo que sua existência é maior do que uma nota de 100 reais, que sua boca se fecha diante do erro, que seus pés são ancorados pela solidariedade e seu coração não foge jamais à busca pela realidade. não há coragem no frio congelante da geleira nem no caminhar do andarilho perdido. a luta é vencida pela verdade que há dentro de nós e de nada vale figurar-se em antigos impulsos. seguir em frente é reinventar as manias e abrir mão da ferida reaberta. somente o momento em que a coragem exige sua presença é que os valores mais ocultos de um coração vêm à tona.

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