para o menino mais bonito do lugar

richard newstead

cheguei cedo no lugar. tinha vinte e pouquíssimos anos, minha lei era esperar com a amiga a abertura oficial das portas. entramos. vi algumas pessoas – “provavelmente o staff“, pensei. pedi a pepsi limão com gelo, a bebidinha sem-vergonha e cancerígena, lançamento sensação da época. fomos para o meio da pista escura e chão cor de sujeira. olhei para a frente. foi ali o momento em que bati os olhos no que podemos chamar de “minha vida vai mudar agora”. e assim aconteceu. dei uma gargalhada nos ouvidos da amiga. cochichei. ela definiu como loucura mas eu havia acabado de me apaixonar pelas costas de uma regata branca e sua viseira. não precisou de um olhar, eu simplesmente sabia que eu queria aquele cara. e eu quis qualquer coisa que fosse, ainda não sabia dizer, mas era ele. e sempre foi ele. mais pra frente pude ver o seu rosto e assim o gravei para a dura batalha que viria adiante: a busca de sua identidade. além de não ter um nome, nickname ou qualquer coisa que fosse, eram tempos de uma internet rústica, sem “mirabolâncias” de google ou sistemas que traçam palavras-chaves e imagens. foi árduo. utilizava os intervalos entre livros de adorno e bauman para utilizar o computador do laboratório de jornalismo e seguir em frente com a minha pesquisa platônica. publiquei classificados invisíveis no meu blog pessoal. descrevi o mito daquela imagem fixada em meus pensamentos no diário virtual secreto. alguns meses depois achei o dossiê do meu objeto de idealização ou, para os mais antigos, o seu fotolog. aquele foi um dia de imensa empolgação particular. monopolizei o assento e passei horas tentando decifrar fotos e legendas. descobri o que ele gostava de fazer, onde gostava de ir, para quê ele dizia todas aquelas palavras. tinha em mãos a única fonte que poderia me aproximar daquela loucura à primeira vista. e assim um ano se passou. conheci as festas, as músicas, as pessoas que cercavam aquele mundo em que ele vivia. saía sozinha, criava coragem a cada timidez que deixava pra trás, conheci grandes amigos, descobri um mundo de música divertidamente inteligente. nos aproximamos sem artimanhas. nunca tive um plano “a” muito menos um “b”. eu apenas ia onde ele poderia estar e sem perceber passei a amar todos aqueles lugares. um dia ele me reparou. um dia nos beijamos. em um ano o pedi em namoro. o seguinte foi o melhor ano da minha vida. sempre espalhei pelos quatro ventos que aquele foi o meu ano. mas ele chegou ao fim e o meu amor mais sonhado se foi. por motivos justos. tinha que ser assim, agora eu aceito. deixei que partisse com a certeza de que eu sempre ia esperar alguma coisa acontecer. hoje queria enviar um “oi” ou talvez um pôster. poderia escrever um e-mail enormemente sincero e pedir redenção por todas as bobagens adolescentes que fiz. eu até iria nas festas novamente. mas com o tempo a gente fica meio bobo nessa vida. a coragem que tive há oito anos não existe mais dentro de mim, ela deu lugar a um adulto racionalmente prático e medroso. o que será que ele pensaria se recebesse mais um cd de hits desconexos? ou uma caixa de polaroids de mentirinha com fotos que falavam sobre nós? ou uma mini coleção de colagens toscas? ou o segundo convite que eu poderia fazer na vida para que ele topasse sair comigo? o que ele ia fazer quando percebesse que, sim, até hoje estou aqui, firme, com ele nos meus pensamentos? loucura, provavelmente. ou concluiria que, além de louca, sou uma tremenda chata que de vez em quando envia uma demonstração de paixão infantil. morro de vergonha. estamos na casa dos 30 e esta é a casa em que só trabalhamos e pensamos em brincar com os sobrinhos. como é pensar em tudo o que fiz quando nova e, agora, voltar a espalhar pra cidade que eu sempre gostei dele? não sei se dou conta. talvez por saber que o meu amor de viseiras não existe mais, agora ele usa camisa jeans. e a menina que pedia pepsi no balcão agora bebe caipisaquê. estamos separados por uma linha bem densa de tempo que só faz o meu coração inchar de tanta saudade. e sonhar com um futuro em que coração não se afunda, coração não se enforca.

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