buraco de bala

daniel grizelj

sempre achei difícil escrever sobre a felicidade. o que eu sei é vivê-la. celebro sua chegada sem papel ou tela de computador e desfilo seus sorrisos como quem não tem muito tempo pra ficar por ali. quando estou com os olhos esbugalhados de feliz eu desenho: nunca enxerguei letras para descrevê-la. a felicidade me puxa pelas mãos e me leva para muito longe, daqueles lugares em que a demora é de mais de um dia pra chegar. é por isso que de lá pra cá as palavras se perdem pelo vento e o que me resta é o abandono em seus braços. a calmaria dos dias pequenos, a inquietude ingênua dos longos.

sempre achei fácil escrever sobre a dor. porque sua presença é ter o meu peito perfurado em três. é ver um pedaço virar cinzas, outro lutar devagar por um fio de mudança e o último que restou inteiro, respirar por aparelhos – e é onde me resta amor. escrever sobre ela não me torna triste, mas sim me liberta. é um passo a frente de todo o inferno em que meus olhos se cegaram e uma pá para fechar o buraco de bala que se abriu em minha alma. a dor é meu grito oculto, minha saudade enterrada, meu pesadelo esquecido, o número do seu telefone perdido. nunca faltam palavras para a responsável por me tirar daqui de dentro, por bagunçar tudo aqui fora e mexer no meu cabelo. como seria difícil vomitar seu poder de atrapalhar todos os sentidos e de fazer voltar o rolo de fita incansavelmente? todos temos nossas dores. enlatadas, encaixotadas, empacotadas, ensacadas, latentes, ignoradas, adormecidas, vivas. escrever sobre essas bagagens é falar sobre força e redenção. aprendi a conviver com a dor há muito tempo, tanto que nem sei mais como contá-lo. e por isso aprendi que só depois da dor é possível reconhecer a maior das felicidades, o mais amarelo dos dias, a maior das surpresas que algum dia desses ainda vai chegar.

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