não uso borracha

escrevo porque senti quando aconteceu com ele, enraiveci quando quem falou foi ela, morri quando foi comigo. esvaziar-se em palavras é contar histórias verídicas, outras nem tanto e fantasiar no que somente há de mais profundo e pode inspirá-lo a criar. escrevo porque ela chegou na porta da frente e saiu de madrugada pelos fundos, voltou pela janela do meu quarto, voou por sobre a estrada mais longa ao meu encontro. elaboro com muitas letras porque já recebi mais buquês de flores que alguém com 14 anos poderia contabilizar em um ano, já tornei o impossível em momento, já falei o meu nome para mais de um milhão de pessoas, já contei tanta coisa para tanta gente que a voz esgotou e só sobrou papel.

escrevi sobre você porque é verdade, sobre ela porque foi sonho, sobre ele porque deveria ser assim mesmo, sobre ninguém porque eu ainda não o conheço. quero contar pro cosmos que ganhar um pacote gigante de bala de goma é muito divertido mesmo não chupando bala, que lembrar daquele sorriso é a melhor das saudades, que enterrar fantasmas foi só uma consequência natural diante da minha ignorante frieza juvenil. fiz o que fiz porque era para fazer só isso mesmo, deixei de fazer porque não dava conta, magoei porque era a única saída de um peso doído. frases jorram com total velocidade quando vejo que andar por entre luzes cegam, quando deparo com a paisagem mais bonita que nem o cartão postal guardado na sua gaveta poderia estampar. quando eu enxergo a leveza do outono, escrevo – e a imensidão colorida da primavera também. por muitos anos acumulei todas as letras do alfabeto (e as inventadas) em papéis de carta, todo o meu eu em cadernos universitários.

avistei da janela do ônibus a cena mais triste que as ruas podem contar e escrevi. corri o mais rápido que pude para sair daquele lugar e escrevi. recebi uma carta de amor tão sincera que escrevi antes de sorrir. eu já escrevi todas as doenças que vi, as tristezas com que convivi, as incertezas de sonhos que não eram meus, a astúcia de colecionar boas respostas, as alegrias genuínas que eu tenho sorte em ter todos os dias. deixei de sair com você porque queria escrever, não fugi porque o que me restava eram as canetas, eu deixaria de ter você se isso custasse a minha escrita. contra este desejo nunca houve remédio.

escrever é falar para você que, não, você não é o único e talvez não seja esse você e, sim, as folhas balançam calmamente com o vento que atrapalha minha concentração enquanto digito meia dúzia de sentimentos e fábulas. escreverei porque eu já vi de tudo nessa vida. já escutei de tudo da outra. já lutei contra dragões famintos e leões mancos. já briguei na rua e me arrependi. já mandei cartas de amor pelo correio e recebi multas em troca. já descobri que o meu mundo é o menor dos mundos e ele só existe e é importante porque está dentro de tantos outros.

não posso deixar de escrever porque ganhei o primeiro diário aos oito. o que sei dessa vida está escrito, o que aprenderei enquanto tiver um amanhã vai virar frase, o meu codinome é papel. o que eu mais sei fazer nessa vida é dar uma palavra para tudo o que importa, tudo o que é instigante, tudo o que faz parte de mim e de você e do outro você e de tantos outros. escrevo no computador, no papelzinho, no post-it, na parede, na pele. nunca me arrependi de nada do que escrevi, não uso borracha. nunca voltei atrás e mudei a vírgula que representava a sua promessa, muito menos o ponto final que dei quando eu desesperadamente quis. escrevo para ser lida, para ser esquecida, para não ser vista, para ser descoberta, para gritar para mim mesma o quanto há amor por tudo o que está ao meu redor e dentro de mim. a vida não tem corretivo. e todos nós vamos ter que aceitar todas estas palavras. sejam para você ou não.

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