a minha praça

samyaoo

do banco da praça eu vejo versões de pessoas indo, vindo e voltando. próximas a mim sentam versões em dupla, em sua grande maioria. vou sempre à noite, depois de ter saído mais cedo com alguém e, em todas as vezes, sou a única sozinha. o lugar em que me sento nunca é aleatório, o pré-requisito para sua escolha é segurança. sempre penso o que sou ali, no banco de uma das praças que formam quatro. vejo-me adolescente, quando acendo um cigarro e sinto companhia em sua presença sintética; vejo-me  divorciada de meia-idade, quando reflito no direcionamento de frases filosóficas que explicam lutos e perdas; vejo-me idosa, quando penso nas experiências que tive e entendo porque escolhi conversar mentalmente comigo mesma justo em um grande cruzamento movimentado da cidade.

são várias marianas que se sentam no banco da praça. mas quem passa por lá vê apenas aquela que imagina. tem o grupinho com o olhar “ela está esperando alguém”. tem o homem solitário que me olha por inteira e continua me olhando ao virar a cabeça para trás. tem as duplas de amigos e amigas que me olham com interesse – “quem sabe ela não quer ir com a gente?”. tem os que também estão sentados na praça há mais de uma hora e me olham de longe com a dó do “ela está sozinha até agora, deve ter levado um bolo”. e tem os que passam e não me enxergam: esses são os que mais puxam o meu olhar.

sempre há interação com três ou quatro pessoas que, sendo os transeuntes que são, permanecem por raros minutos e me pedem o isqueiro emprestado. tem o que justifica seu pedido dizendo que tem vários em casa mas se esqueceu de pegar um naquela noite, o que acende o cigarro enquanto me olha fixamente, o que sorri aliviadamente quando percebe que tenho a voz mais doce que uma garota poderia ter nesse mundo.

às vezes sinto inveja da euforia dos guris munidos de arsenal alcoólico em garrafas pet e sua alegria nervosa diante das opiniões pré-aprovadas pelos amigos, do casal de gordinhos que se abraçam com desejo de eternidade, do trio de magricelas que mira o espelho freneticamente enquanto tentam alisar os cabelos com os dedos, do pai que segura o braço do filho pequeno que tenta alcançar a fonte luminosa. mas logo em seguida percebo que eu sou o coração acelerado por novidades da turminha de metaleiros, o sonho imaculado de um altar de cravos do casal de gordinhos, a  beleza soterrada por sombra e batom das magricelas eufóricas, a sede de vida da criança que corre riscos para sentir água percorrendo a pele. meu sangue bombeia todas aquelas histórias enquanto estou ali, com meu rosto plácido, olhar sério e sorriso frágil. eu sou a independência da escolha de estar ali, só com meus pensamentos e minha latinha de coca cola.

eu poderia dar bola para o cara que anda me paquerando e chamá-lo à praça comigo, poderia ligar para qualquer um dos 159 nomes da minha agenda telefônica e prometer risadas ou poderia simplesmente voltar para casa e não mais me sentar ali. mas a praça não é o meu quarto, nem a minha varanda, muito menos a garagem do meu carro ou a mesa de bar com os amigos. minha permanência na praça é a minha lágrima lavando as calçadas de belo horizonte, o meu sorriso iluminando a sujeira dos papéis jogados e a minha solidão se aproveitando das histórias dos outros. estou sentada no banco da praça para avisar o mundo que não estou à espera de ninguém, muito menos de você e que naquele momento eu penso em tudo, menos em amor. estou ali para me alimentar de um pedaço das ruas e me sentir real. é no banco da praça que aceito ser o grão de areia que sou e que deixo bem claro o quanto tudo poderia ser diferente mas não é e nem nunca será. sou a pessoa mais livre da praça, a que pega a liberdade para si e sente sua verdadeira condição diante da plenitude de ir e vir.

eu encarei o banco da praça pela primeira vez há quatro semanas. o início foi difícil. mas agora, já me sinto normal por ali, já faço parte da população. se você passar por lá vai me ver. mas tem que ser noite e final de semana para dar certo. são várias marianas com todo o sentimento do mundo. são pequenas solidões em meio a várias outras de tantos outros. sou eu gritando para dentro que as melhores coisas dessa vida só acontecem quando nós as deixamos acontecer.

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