ultrapassada desordem

genevieve laplante

a pior coisa que podia acontecer já aconteceu muitas vezes. e a dor, cumprindo direitinho o seu papel, sempre apareceu como se fosse a primeira vez. de supetão, veio esfolar o meu nariz para marcar território e alertar que, sim, a vida tem disso mesmo. a chegada triunfal da dor me tornou a personificação da revolta e eu poderia contar quantas pessoas estraguei pela vida enquanto estava com o coração espremido. o flanelinha que ouviu poucas e boas de uma folgada burguesinha que carrega 800 reais nos pés, o bonitinho que via amassadas suas cartas com o desenho dos sonhos por uma menina estranhamente delicada mas com o olhar amargo, os pais que quase perderam os dedos na tentativa de segurar a porta que a filha batia com punhos de aço. lembro-me sem intenções dos dias em que a revolta tornava meus olhos vermelhos e cerrados. foram momentos primos da ira, o sentimento mais cruel que alguém pode sentir – e também o que mais temo.

a minha revolta é acompanhada por flores pretas e caveiras definhadas. ela veste tecidos esburacados e tem um punhal dourado cravejado por rubis sempre à mão. não vê beleza em nada que se mova, se corrompe pelos caminhos mais sujos que apareçam à frente. ela faz com que eu atire pedras a todo segundo, que eu me jogue em escombros, que eu sorria freneticamente sobre a sepultura de todos os arco-íris que perdi pelo caminho. já virei mesas de bar, corri na contramão, culpei deuses e luzes, tornei físicas palavras de súplica pela pele. já me revoltei tanto que deixei pra trás tudo de bom que essa terra julga só para ver como é engolir o maior vácuo que se pode ter. até que chorei.

encarei a revolta sem escudos quando chorei. o sal das lágrimas regaram a semente que foi plantada aqui dentro em algum momento remoto da minha vida – e então floresceu a compaixão por mim mesma e a dor em perceber que, não, eu não vivi tanto assim para fazer tudo o que estava fazendo. foi assim que travei uma luta épica contra a aura da revolta. e luto todos dias, na verdade. luto sem esmurrar o espelho, porque agora é ele quem guia minhas trilhas. luto sem forçar o dedo na sua cara, porque agora é você quem tem toda a minha compreensão, por mais medíocre que seja. luto sem cuspir pela sarjeta, porque é lá que eu me encaixo e será lá que eu vou limpar todo o lixo despejado pelo mundo.

a revolta sempre me puxa pelos ombros mas eu aprendi a negá-la com força e determinação. sua presença evoca uma doentia relação entre paraíso e ilusão, ambas mentiras que nunca quis perto de mim. se for para bater, que seja em um saco de areia; se for para destruir, que seja toda a dor que tirou o meu ar; se for para gritar, que seja por alguma coisa de valor que se iguale ao dia mais bonito que já testemunhei. a pior coisa que pode acontecer ainda vai acontecer e será mais de uma vez. a diferença é que, a partir de agora, as minhas armas estarão descarregadas e quem estiver por perto só vai receber o melhor que a dor poderia me trazer: a convicção de que eu sempre fui muito melhor do que as cinzas em que pisei .

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