desconhecida

eu sou o berço do qual desci sozinha aos três anos de idade. sou o vinil do tears for fears arranhado no chão do quarto. sou as barbies com cabelos de nylon. o ursinho que ia dentro da mochila. as balas de maçã verde. as cartas para o menino do primeiro beijo. a carona na bicicleta do namorado que ia me buscar na escola. o show da banda nova. os balões vermelhos que saíram de dentro da caixa do presente do dia 12. sou o ciúme que o feria por dentro, a desconfiança errônea, a insegurança do nada, a causa do erro. sou a viagem com desconhecidos, o adidas preto, as fotos desfocadas. sou o céu cinza da cidade dos prédios mais altos, a flor de cerejeira avermelhada, o menino esquisito, os encontros ao acaso, o choro na praça da liberdade. sou a timidez de esperar alguém na porta, o silêncio do questionamento, a espera eterna, o novo sem-graça. sou a falsa identidade, a mentira acumulada, a ilusão velada. sou a música do the clash, o funk old school, a bossa nova da novela. sou os pássaros do hitchcock, a tela no museu de arte, as risadas do talk show enlatado. sou o beijo para a vida toda, o beijo de quem não é amado, o beijo sem motivo, o beijo no rosto. sou o sol da manhã de sábado, a notícia da morte do avô, a insônia da monografia, o vestido de cetim da formatura. eu sou as canetas coloridas, os pedaços de papel, a coleção de borrachas, a tesoura com ponta, as colas brancas. sou a irmã postiça com um diamante, a melhor amiga declarada, a colega divertida, o banco vazio do carro, a ausência nos aniversários. sou a mudança necessária, o pedido de socorro, a força urgente, a convicção em busca do respeito. sou a briga com calúnias, a amargura do rancor, o engano da história que você contou. sou o sorriso da festa, o botão de rosa vermelha com chocolate, o elogio mútuo, a ajuda pedida, o maço de cigarros, a garrafa quebrada, os laços aveludados, os livros com capas ilustradas. sou a esperança dos desejos, as possibilidades sonhadas, a verdade almejada, a âncora incrustada. sou a mulher engraçada, o blazer jeans com broche de coração, a vontade de ganhar o mundo. sou o punhal dourado, a flâmula da honra, o coração sem jeito. eu já fui muito e agora sou muito mais. porque nós também somos as nossas perdas.

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