não vou entrar

jade brookbank

eu não entro mais no club. a última vez que entrei eu me sentei, foi automático. peguei o banco de madeira altão, coloquei bem ao lado das duas estridentes caixas de som gigantes, regulei o energético no copo com gelo e posicionei o canudo de maneira a cobrir a minha visão. a música era boa – rockabilly. mas nem ela me fez ter a coragem de ensaiar alguns passos. foram dez anos dançando naquela pista enquanto que, naquele dia, ela mais parecia uma areia movediça caso eu arriscasse abrir mão do assento. estar ali doía porque o meu studio 54 particular não existe mais. observei as pessoas. elas não são mais interessantes. são todas previsíveis. alguém não se importou com a minha testa enrugada e iniciou uma conversa. foi em vão, afinal, simplesmente não se ouve as pessoas no club, eu nunca as ouvi. e talvez seja por isso que meu peito gritou por silêncio. eu sempre me esforcei muito para ouvir tudo escondido pela música. quero mais do que o abafo das palavras pelo som exagerado, quero mais do que pessoas randômicas se aproximando com objetivos contrários aos meus, quero muito mais do que fechar os olhos e dançar como se o sapato de bico fino não estivesse massacrando meus dedos. não quero explicar para ela o que significa a estampa da minha camiseta, não quero contar para ele o que faço nas horas livres, não quero ter que sorrir para todos os corpos sem rosto diante de mim. hoje eu realmente não entro mais no club. minha permanência foi de três horas. vitória. não explodi para o mundo que estava lá dentro o quanto meus pulmões pediam por ar fresco. não contei a ninguém o erro que era estar ali. não desisti de ficar até o limite, mesmo com os olhos ardendo, mesmo com as insuportáveis tentativas de diálogo desconexo. fui até o fim para perceber que, sim, aquele era o capítulo final do club. momento curto aos olhos de muitos mas longo se eu me lembrar bem de toda a trajetória. não mais gritarei de empolgação com a música da banda preferida. também não vou tirar foto com o cabelo atrapalhado e a calça jeans rasgada. simplesmente não quero mais porque sua escuridão não combina com a minha vida. preciso dormir porque só funciono quando acordo cedo. não quero dar ao club a minha manhã de domingo, nem o meu sonho revestido por papel colorido. não sou a nova geração. posso ter as roupas e a sua leveza mas prefiro o céu ao teto sujo. sempre fui muito feliz lá dentro. mas agora só sinto a falta de sentido que é fazer parte de tudo o que representa. sem tristeza, lembrança ou pesar eu chego até a porta. não sentir nada é exatamente o que eu precisava para não distribuir tempo em suas noites incertas. ando precisando muito de tempo. tanta coisa a fazer que não dá mais para desperdiçar minhas fichas. meu adeus aos clubs foi tão natural que imprimiu só uma passagem de volta pra casa. vou ganhar a praça, a rua, o seu apartamento, o novo escritório, a casa de sucos da rua de baixo. e não passo mais pela porta adiante, não preciso nem vou mais entrar.

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