dias de acolhida

ML harris

cheguei ontem numa imensidão de gente a que defino como ‘trabalho novo’. aos meus olhos de novata, são todas interessantes e exalam o frescor do ar puro da curiosidade. tudo torna-se novidade e, como já esperava, somente agradáveis. estou usando uma cordinha de crachá que tem gravada repetidas vezes a palavra “acolher”. fui informada de que durante o meu período padrão de experiência esta será a minha companheira diária. a ideia das palavras bordadas em azul vem com o pedido da empresa de que os colaboradores me identifiquem corretamente como a “menina nova que anda por aí” e, claro, me acolham.

acolher é mais do que abrir um sorriso e dar bom dia. aprendi seu significado no pouquinho tempo em que estou por lá. são colegas que se preocupam em me dar o direcionamento correto das demandas, que fazem questão de me acompanhar na hora do cappuccino, que esperaram o meu primeiro dia só para sortear o amigo oculto do setor. a minha amiga, já conhecida de longa data, assumiu nossa parceria e me ensinou mais do se espera em apenas dois expedientes. um colega que vestia um belo terno cinza me avisou que o elevador que eu esperava não funcionava lá essas coisas e se ofereceu para me contar mais “cotidianices” típicas do local. ontem esqueci minha sombrinha na recepção e, antes de eu voltar da minha parada para encher a garrafinha de água, ela já estava na minha mesa. as serventes já me chamam pelo nome quando ando pelos corredores e a recepcionista achou a minha foto 3×4 linda (isso sim é muita bondade por parte dela!). isso me faz apegar à sorte que tenho, por ter saído de um emprego em que mais parecia a extensão do meu lar de tão aconchegante que era e ter entrado em um dez vezes maior mas com o mesmo clima bom. sinto o mesmo entusiasmo da mariana de dez anos atrás que chegou ressabiada, com pastas e disquetes na mão e a cabeça fervilhando de ideias e vontade de criar na primeira entrevista. com a confiança adquirida em uma década de dedicação ao que ficou para trás já enxerguei o meu novo lugar e vou abraçá-lo com todo o carinho que puder, assim como fiz da primeira vez.

mais do que me sentir acolhida, sinto a gentileza bem próxima, bem real. muitas vezes desisti de esperar por ela, principalmente enfrentando as ruas do centro da cidade, em que pessoas me enchem de hematomas com suas bolsas e nem olham para trás, ou pegando ônibus para chegar em casa, em que mais vale um grande espirro no meu cabelo do que a lembrança de tapar a boca antes. ainda bem que a vida tem seus dias de bom humor, quando abre a janela do quarto e avista um arco-íris bem brilhante. é aí que ela me lembra de que, sim, esse mundo ainda tem jeito. e é repleta de pessoas que prezam os mais simples – ao mesmo tempo poderosos – momentos em que vale a pena conviver.

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