nada pra você

noel hendrickson

fiz de tudo para você não ficar comigo. contei uma história absurda, apontei o dedo na sua opinião mais sincera, me vesti do meu sorriso mais tosco, usufrui do meu vocabulário mais chulo, exibi memórias que deveriam ser esquecidas. mas de nada adiantou, você ainda quis roubar um beijo meu. pode ser para fazer valer o preço das cervejas que teve que pedir durante o meu atraso de 30 minutos, para fazer valer o esforço que teve ao sair em uma cidade de pessoas que não se arriscam debaixo de chuva, para fazer valer a esperança da possibilidade de infinito que viu em mim.

saí de casa poesia mas no meio daquele encontro me tornei desencanto. optei pela minha máscara vazia, pelas palavras aleatórias, pela brincadeira mais infantil, pelo desejo que tive de vingar todos os dias mortos marcados no meu calendário da vida. sem peso na consciência digo que agi assim por mim mesma, caro engano. enquanto caminhava até o restaurante reservado cuidadosamente por você, descobri que sua repentina aparição não se parece com o meu desejo de conquista. descobri que você não combina com meus filmes franceses, minhas bandas oitentistas, meus sapatos com apliques, meus recortes bonitos de revista, meus ídolos suicidas, minha parede magenta. suas conversas distantes dos meus olhos refletiram sua fraqueza juvenil e martelaram na minha cabeça o quanto seu cabelo comprido compete com o meu.

eu esperava por um alguém diferente de você. aquele que sabe sentir tudo aquilo que move seus músculos involuntariamente, que define como saudade a despedida do sol depois de um dia preenchido por trabalho, que espera com prazer o momento em que debruça no parapeito do oitavo andar e vê calmaria na avenida mais movimentada da cidade. as suas piadas não têm graça muito menos sua ironia disfarçada. os seus segredos são óbvios e seus fracassos postos à mesa. as suas lágrimas são de plástico e seu discurso tem erros de concordância.

não te retornei a última ligação por me sentir viva com os raios de sol que batem nos meus olhos escuros, por me sentir feliz quando tem salada com aspargos no almoço, por me sentir realizada quando passo o crachá na catraca e bato a porta do carro sabendo que a próxima parada será a minha casa. saímos apenas uma vez e por mais que o esforço fosse legítimo você deveria ter sido esperto o suficiente para sacar que a sua vitrine infestada por frases feitas não seria capaz de conquistar o meu olhar sedento por novidades.

só deixei de te responder aquele dia por ser mais fácil. difícil seria te dizer que, uma pena, eu deveria ter sido sincera com o meu espelho e nem ter ido até onde fomos, afinal, eu sempre soube que para você eu não tenho nada a oferecer.

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