a minha nova bicicleta

lisa blue

tenho muitas lembranças incríveis de infância. todas as que se pode imaginar. mas a mais forte é a da liberdade que sentia, com meus cabelos aos vento, quando pedalava. minha bicicleta era cor-de-rosa e tinha uma cestinha branca. a cesta foi descartada quando completei 12 anos, eu a escondia atrás do carro do meu pai quando descia para a garagem do prédio antes de sair pelos arredores do bairro, queria me mostrar adulta para o menino mais bonito do edifício corporativo vizinho. mas logo me esquecia daquele objeto platônico quando ganhava as ruas. sentia meu coração livre quando passava a tarde pedalando. sentia a descoberta, a fome pelo novo, a empolgação de chegar aos lugares em que só passeava sentada no banco fofo do carro do meu irmão mais velho.

sempre me lembro da menina de franjinha que percorria distâncias que a mãe nem imaginava, até os 17 anos. minha liberdade estava ali, próxima aos meus pés. parece que ainda ontem vi as senhorinhas de saião marrom e blusas de seda floral, caminhando lentas pelas sombras das árvores da calçada. as criancinhas com as babás vestidas de branco sentadas no concreto da pracinha com canteiros de flores vermelhas. o dono da sorveteria que conversava animado com a mocinha do caixa. o farmacêutico emburrado que ficava escorado na vitrine espelhada repleta de cremes e maquiagens. a rua de onde nasci, que um dia virou avenida e triplicava o número de carros como que da noite para o dia. a linha de ônibus azul que ganhava velocidade quando descia a rua inclinada a três quadras da casa branca com o portal de madeira brilhante.

eu passava por essas lembranças. e voltava. quando corria era vista como uma linha rosa de faísca. quando diminuía, me apoiava sobre meu tênis da barbie e ficava estática a olhar as capas dos gibis que ganharia do papai no próximo domingo na banca de revista do casal simpático que me dava uma bala de presente toda semana. pedalava todas as tardes, de segunda à sexta, e todas as manhãs do final de semana. quando acontecia de ir à noite, com a minha mãe conversando com a amiga sem tirar os olhos das minhas peripécias, tudo era ainda mais encorajador, emocionante, diferente, grande.

e é por essas e muitas outras dos meus diários de bicicleta que comprei uma novinha essa semana. acho que nunca fui tanto o meu coração de menina que amava o vento no rosto, que viajava pelo mundo dentro do próprio bairro quanto agora. desta vez não tenho cestinha para esconder e a minha “duas rodas” é acromática. ela é linda. e ao subir no meu presente de natal antecipado percebi que toda a felicidade desse mundo continua pura bem aqui dentro de mim. ainda vou falar muito da minha nova bicicleta. ela é mesmo linda. ela trouxe de volta e esticou a descoberta que me faz ser o que sou: um sopro bem forte de liberdade.

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