alimento-me de força

rekha garton

minha força vem dos “nãos” que ouvi em todas as vezes que supliquei pelo “sim”. vem da verdade que lutei para resgatar do fundo do vazio. vem do grito de liberdade de que me vestia para sair de casa. vem da vontade que nunca cessa em me reafirmar como importante no meu próprio mundo. vem da loucura de minimizar problemas para acreditar na paz. vem do trabalho impossível, do desafio angustiado, dos ponteiros tortos do relógio sem pilha, dos dentes apertados, das cinzas que engoli, dos pregos enferrujados que arranharam a alma, dos nomes que esqueci, da cegueira em caminhar por pedregulhos enquanto procuro por diamantes.

toda a força de que me nutri vem dos testemunhos que pousei sobre o injusto. nunca encontrei força no travesseiro, somente a tive com os olhos caídos de cansaço. em minhas mãos macias há unhas sem esmalte colorido, mostrando para todos que ali há força. minhas lágrimas ressecadas reluzem no rosto coberto por blush cor-de-pêssego, exibindo para a vida que, contrariando a aparência, há uma carga bem dosada de força enraizada ali.

sou forte quando me chamam de ingênua, de inconstante, de desconhecida. fui forte quando não toquei os pés no chão, quando senti dor em todas as minhas terminações nervosas, quando você me pegou olhando nuvens. quando há socos nos espelhos, quando há uma pequena porção de revolta contra todas as marcas de nascença, quando há temor pelo arco-íris mais completo eu me sinto forte. genuína é a minha força sem olhos vermelhos, sem punhos cerrados, sem a voz trêmula dos dias desesperados. meu alimento é a força em superar o que foi surpreendido, em contrariar as expectativas e fazer tudo diferente. porque dessa vez eu sou forte o bastante para constatar que não dei conta. e é agora que, nem antes nem depois, a minha força vai vir ainda mais latente, mais intensa, mais enlouquecedora, mais redentora. encontrei a força mais bonita: a que se parece fraca mesmo quando, na verdade, é a maior de todas as outras.

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