caráter nominal

ballyscanlon

é um nome incomum na minha caixinha de histórias. não pode ser encontrado como protagonista nem coadjuvante dos meus maiores acasos. todos os que ouviram seu nome o definiram como forte, robusto, crédulo. só citei isso – seu nome – e mil qualidades surgiram pelas conversas de almoço, café e bar. era como se fosse um sinal vindo diretamente de sabe-se-lá-onde, que chegou loucamente ao palpite de todos. ri. intrigante pra mim são os incontáveis fatos em que algo sem provas ou motivos parece ser tão certo. cataloguei seus feitos, enumerei os possíveis defeitos e contei momentos só seus que testemunhei há alguns anos. seu nome continua a ser tratado como diferencial, como objeto de estudo, como um motivo para os meus amigos. acho engraçado saber que mesmo o conhecendo tão bem para a amiga que sou nunca tracei planos ou fantasias para remontá-lo em meu futuro. mas para todos o seu nome combina com o meu. e agora parece que só isso basta para que expectativas sejam desenhadas. os primeiros traços à lapiseira já foram suficientes para ter lido o seu nome no caderno do escritório, no canto do livro da estante, na placa luminosa. é prematuro, é inconsequente, é sem correspondência ao juízo. mas grandes histórias de amor começam mesmo assim, empreguinadas de papéis dobrados e cobertos por anotações de folhetim, todas as minhas foram assim.

seu nome é o primeiro de todos os outros na chamada da escola, é o primeiro na lista de amigos, é o único conhecido por mim. e o seu sorriso me leva a um instante ainda não vivido, a uma harmonia estranhamente possível, a um laço azul anil atado por cola transparente. não há como fugir de uma comoção geral, seu nome já faz parte da pauta do dia. e foi o seu nome quem somou ao meu, quem assinou o convite para o final de semana, quem contaminou todos os meus pensamentos, quem criou um universo de mensagens interessantes, quem fabricou a versão heroica de você. o meu nome sempre foi importante em suas falas, você que adora criar versões curtinhas que força a ocupação de espaços economizados. conversamos outro dia sobre nomes, fingimos uma lista deles e criamos pares. temos fixação pela nossa dupla nominal.

o seu nome virou texto porque, mesmo sem entender direito, agora eu gosto de você.

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