do avesso

teresa short

aumento o volume do som para não ouvir a minha própria voz, que grita a todo instante o quanto eu me torno uma versão ao avesso do que poderia ser a cada história. o quanto eu me irrito com qualquer barulho que seja. o quanto as minhas mãos estão com a pele fina e ressecada. o quanto eu durmo menos a cada noite que tenho. o quanto eu escolho me sentir bem ou mal. já tentei ouvir não só a minha voz como a sua também. e quis muito ouvir as duas, por muito tempo tentei, eu sei, só que há tempos cansei. é por isso que eu não quero. não quero ser protagonista de problemas criados pelos outros. não quero disfarçar. não quero gente juvenil. não quero mais ser tão bem educada. não quero calçar sapatos dentro de casa. não quero falar baixo. não quero me encantar. não quero palavras formadas pelo vento. não quero promessas, por favor, nunca prometa. porque o tempo já passou, o meu nome até mudou e eu não mais recebo envelopes vazios. eu nunca salvo nomes na minha agenda telefônica, nunca conheço alguém que eu realmente queira conhecer, nunca tomo o meu café na hora em que marquei, nunca faço o que realmente deveria fazer. é por isso que fumamos cigarros. que pintamos os cabelos com todas as cores do arco-iris em um curto período de tempo. que nem sempre dormimos quando queremos. que falamos tanto. que desprezamos cartas, queimamos fotos, desistimos de sair de casa, resolvemos sair, voltamos, deixamos. eu nunca baixei o volume do som para ninguém. e odiei quando você o fez, sem sequer pedir ou dizer o por quê. é por isso que eu aumento o volume do som: para não mais ouvir o mundo de erros que enxerguei depois de conhecer você.

Anúncios