a terra dos tristes

shoshannah white

a tristeza tira tudo o que você tem de melhor. pelo tempo que ela quiser.  senti-la é deixar de entender e de querer explicar. é o peso dos olhos e de tudo o mais que você tiver de forte – e também de fraco. é o coração se derretendo em chamas e também se congelando por inteiro. é o brilho da luz que se desfaz em alguns segundos, como se todas as estrelas fossem apagadas no céu. estar triste é ver a sombra agindo por vontade própria, é olhar para uma parede branca e ver suas histórias projetadas sem pé nem cabeça, é encarar que sua existência é cercada pelo desconhecido, travar o cérebro em agonias. os tristes vagam pelas ruas sem rumo certo, baixam a cabeça sem vontade, ensaiam um sorriso que dói o corpo, não conseguem nem encarar um saco de papel rasgado.

ficar triste é involuntário. você vê o dia mais ensolarado e não vê a menor graça. você coloca a roupa mais bonita – aquela que você vibrou quando encontrou – e não adianta, sua testa franze mais que o seu vestido. a tristeza é tão gratuita que é até mais fácil falar sobre ela. é tão fútil que aparece quando você menos espera – e nunca é sobre o que você acha que é. é sempre mais profunda. você já esteve muito mais triste. só não consegue suportar o que te fez ainda mais triste.

entrar na terra dos tristes é se esquecer do que te faz tão triste. é assim mesmo, sem motivo. esse é, na verdade, o seu maior legado. e chega assim, sem cerimônia. na terra dos tristes não tem faixa de pedestre ou preferencial, flor nem floresta, chance nem vez. sua população é de “alguéns”, todos deixados sob terra vermelha e sem chão certo pra pisar. a lei da terra dos tristes é encarar o outro ao mesmo tempo em que olha para dentro de si mesmo. é sentar-se solitário em busca de fuga ao mesmo tempo em que se agarra a uma parede escura. é ignorar passos. tapar os olhos diante do mar. alimentar-se de pó. é desconhecer sonhos que um dia já teve. é reconhecer-se em pedras. está triste quem deixou de acreditar na beleza do mundo. é cidadão honorário dessa terra quem sentiu a brisa fresca que só o verão tem e não sorriu.

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