remontar

alexander nicholson86002375

talvez seja pela negação do tédio: antes ter algo para lastimar do que escancarar para nós mesmos o quanto a vida anda uma paradeza que só. é assim que nós erramos de endereço e perdemos destinatários. inventamos festas com nomes gringos feitos a base de palavras combinadas pelo dicionário. matamos formigas com o dedo indicador quando sentamos no jardim. elegemos insignificantes como importantes depois que a guerra leva consigo os mais queridos. fabricamos sonhos sem perceber o risco em que nos metemos. erramos perdidamente sem entender o que nos leva a cometer tanta bobagem. costuramos barbantes de dimensões infinitas que traçam linhas imperfeitas. andamos sem rumo a um quarto escuro sem saber ao certo o por quê de não acendermos a lanterna. gritamos no travesseiro ao encarar soterradas e pequenas verdades sobre nós mesmos. encontramos equações complicadíssimas que gastam mais de uma borracha para serem resolvidas. contamos com o acaso para sustentar nossos maiores devaneios. brincamos com fios elétricos sabendo que precisamos de muito mais para causar o incêndio. fingimos esquecer para manter nossas mentes abertas. arriscamos o próprio nome por pouco – ou quase nada. deixamos o respeito próprio sob tutela da eterna espera. vibramos com a queda alheia quando, na verdade, há muito não conseguimos sair do mesmo lugar.

fazemos tantas coisas sem motivo… e ainda várias razões podemos criar, na ilusão de convencer a si mesmo o quanto fantasiar é enganar nossa própria identidade. e tudo isso é culpa do tédio, o monstro que te faz acordar imerso à solidão, palavra prima da palavra humano. e tudo isso é sempre mais simples do que analisar, explicar e evidenciar. porque eu fiz tudo isso só para quebrar a rotina. e, com a maior cara de pau do mundo, voltei para extrair do seu marasmo o cenário ideal para que eu possa finalmente me remontar – sempre por outros motivos.

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