da mesmice

rebecca handler144578921

a mesma festa e seus mesmos discursos. a mesma promessa e suas mesmas desculpas. a mesmice impossibilita a minha sede de vida. fere os meus valores mais bem estruturados e esfarela o meu giz colorido. eu não tenho nada a oferecer a não ser vida. daquelas plenas, divertidas, sofridas, condensadas, loucas. eu não tenho nada a jurar a não ser acaso. daqueles cheios de sentidos, marcados por histórias listadas e coincidências fantásticas. eu nem vou falar mais sobre mim por ser uma a cada dia da semana. sou cada porção de esperança que custa a cair do céu, cada fragmento desgastado de pedra preciosa que se encontra escondido pela grama, cada célula em divisão de um corpo que só sabe viver a plenos pulmões, a plenas imensidões. sou a plenitude do mais incerto que é viver contra todos os mesmos.

e foi assim que eu cansei da mesmice. aquela que se mascarou como paz – mas que na verdade exibia toda uma ironia gótica e escrachada. aquela que se transbordou de preguiça – mas que na realidade dava mais trabalho do que uma expressão matemática gigante de 5ª série. na mesmice me tornei o mesmo. o mesmo que você, a mesma da festa passada, o mesmo que sempre falam, a mesma maquiagem ensinada de revista. imprimi minha boca como peça publicitária, assassinei meus sonhos com tiro de festim, machuquei minha alma com mentiras juvenis.

queria ficar quieta. passaram-se dias que tornaram-se anos. lutava pelo mesmo, a mesma coisa sempre. sem me dar conta disso. agindo de forma diferente encontrei o mesmo. dançando na chuva vi o mesmo sol sobrepor as faíscas geladas. lendo na madrugada vi o mesmo ponto final ilustrar a última página. colando recortes encontrei o mesmo sorriso formado em um todo repetido. lutando no escuro vi o mesmo silêncio preencher o vazio de um propósito solitário.

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