aos domingos

amy deskin
94481533

eu nunca falei mal de domingos. mas às vezes chega o momento de falar. de escancarar a janela e arrancar suas grades. de pedir para parar com o seu sol bonito que mais parece ter sido pintado à guache. parar com as visitas que vêm me ver e mais parecem saídas do álbum de retratos de uma família que eu nunca conheci. parar com as páginas de contos fantásticos que mais parecem escritos por alguém que gosta muito de zombar com o romantismo a que me acomete como doença. domingo, você é por vezes sem graça. mais sem graça que chuva sem nuvens gordinhas. que pastel sem vento. que chiclete ressecado. que gelo derretido. que vestido rasgado. que vinil arranhado. que aperto no peito. que quarta-feira de cinzas. e é triste também. triste porque me lembra o gatinho amarelo que se perdeu na estrada. o passarinho que quebrou suas asas. o montante de cartas que foram despedaçadas para virar caderno novo. o pedaço do caminho que eu fazia para ir até a sorveteria da infância que não existe mais.

domingos me fazem sentir vontade de voltar. voltar para onde não conheço e para onde não quero. tudo isso é vontade de um ontem bonito, um hoje divertido, todos os dias mais coloridos. já fiz as pazes com você semana passada. mas dessa vez está difícil. você dificulta quando me lembra que muito pouco me resta. que cansaço tornou-se sobrenome. que meus dias se perdem em enganos enfileirados. que as portas já não mais se abrem como antes abriam. que os meus lábios não estão vermelhos. que os meus pés passam horas inertes, sem previsão de avanço.

domingos, vocês estragaram tudo. e é como se nem o dia seguinte pudesse me prometer o que você me tira. a cada semana que passa.

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