desencanto

shelby hall

o-matic

eu já quis muita coisa.

quis que a rua da minha casa fosse mais limpa. que os adesivos da minha bicicleta não se descolassem. que o meu pai tirasse férias. que a minha mãe ganhasse um diamante. que a minha sobrinha dormisse mais na minha casa. que as meias nunca furassem. que houvesse mais tampinhas para chutar na calçada. que o vento fosse um aliado quando desço o morro da rua de cima. que os meus pés ficassem cobertos a noite inteira sem o edredom cair. que a minha janela ficasse respingada de água de chuva. que o meu sorriso fosse maior. que o meu coração deixasse de ser apertado. que as pessoas cobrassem menos umas das outras. que eu cobrasse menos de mim mesma. que voltassem a vender giz colorido na vendinha lá perto de casa. que a cor da parede do meu quarto não desbotasse nunca. que a minha calça jeans rasgasse no joelho e não na barra. que o meu blazer azul fosse eterno. que sorvetes não fizessem a testa doer. que existissem melancias sem sementes. que o meu irmão voltasse a ter um quarto em frente ao meu. que a minha cena de cinema acontecesse. que o meu coração parasse de doer. que o meu sorriso ficasse estático. que existisse uma piscina de coca-cola. que as sextas-feiras durassem mais. que os amigos se abraçassem mais. que a lua fosse mais acessível e eu pudesse passar um dia por lá. que as pessoas pudessem ter o que quisessem ter. que eu tivesse força nas mãos. que a minha coluna fosse certinha. que as unhas não se quebrassem. que as folhas das árvores não ficassem pardas. que as tintas não secassem dentro do vidrinho. que as palavras fossem verdadeiras. que mentiras não chegassem mais até mim. que as flores tivessem perfume de longa duração. que os livros nunca perdessem suas capas. que o cheiro de barbie nova fosse prolongado. que os meus brinquedos nunca se quebrassem. que o tempo passasse sem lembranças. que a saudade fosse optativa. que os casais de namorados que acho bonitos nunca se separassem. que café não manchasse os dentes. que plástico não derretesse. que eu não sentisse enjoo em alto-mar. que o remédio fizesse efeito rápido.

eu já quis lembrar quem se esqueceu, fazer o choro dos outros parar, dar dinheiro na rua, telefonar nos aniversários, poder contar com ela, agradecer o motivo desconhecido que me trouxe até aqui. mas agora eu quero querer cada vez menos coisas. porque não basta querer. é preciso fazer. fazer muito mais do que achamos que fazemos. uma linha puxa a outra que puxa outra e outra. a linha do querer que deu um nó no meu poder.

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