quando abro a janela

ana zaragoza122175364

eu já andei pela lua algumas vezes e a minha roupa era fofa e prateada. já nadei no fundo mais fundo do pacífico onde só havia peixes amarelos e polvos lilases. já escalei a montanha mais alta que tem nuvens no topo. já tive uma casa na árvore gordinha do quintal com grama felpuda. já caminhei descalça em papel bolha por vários dias. já encontrei tesouros perdidos com outros dentro. já fiz uma cena de cinema que deu certo pra mim. já consegui fazer a minha vontade ecoar pelo sem fim. já escrevi o poema mais extenso, mais intenso, mais bonito.

expectativas. elas vêm quando abro as janelas. quando elas chegam, eu vou mais longe do que podia esperar. sou capaz de conversar sorrindo sem perceber, de sonhar sem dormir, de contar para o mundo inteiro todos os meus fatos mais heroicos. sou a mais engraçada da turma. até a mais feliz de todas as pessoas que você conhece. tenho os olhos mais escuros e brilhantes da noite e os cabelos mais macios que se vão pela brisa do dia. mas quando as expectativas se vão, com elas se vão também as minhas referências. não sei o que faço, o que fiz nem o que fazer direito. é porque encaro a realidade de que o meu mundinho quase não sobrevive mais à tanta intempérie. quase não entende mais o que é preciso para alcançar o que parece ser o melhor a se conquistar. quase não sustenta mais a sua beleza genuína.

não medir a realidade. não respeitar o limite. não fugir para o inexistente. não entender de uma vez por todas que a solidão é sempre a melhor pedida para uma mente tão inquieta e um coração tão pulsante. expectativas, as culpadas por abafar o meu consentimento com o fato de que ter aberto as janelas feriu ninguém mais além de mim mesma.

Anúncios