sou hipérbole

with love of photography124173902

soltei um sopro de vida. um alívio contagiante, uma certeza ludibriante, um fôlego gelado que acelerou o meu coração. foi a pressão. por algum motivo eu sou motivada pela pressão. a pressão do peso do mundo. um mundo dentro do outro. o mundo de um coração remexido que não acompanha o poder de elaboração racional que atinjo. que foi feito à base de pedaços unidos por cola. de pedaços foi moldada a minha personalidade. pelos pedaços que distribuí sem juízo por aí. por acreditar em tudo o que quase ninguém acredita, por enxergar distorcido, por viver mais tempo nas nuvens do que no lugar que deveria ser o melhor do mundo: a terra firme.

mas agora eu descobri o meu motivo. e a minha culpa nisso. porque eu fui a menina que permitiu que comprassem todas as balas da sorveteria. que beijassem o meu primeiro beijo. que entortassem o guidão da minha bicicleta. que falassem o que eu nunca nem pensaria. que ditassem o que eu deveria fazer, escrever, pensar, aceitar. que contassem dropes de mentiras. comprei ilusões, criei algumas outras e nada fiz. nunca fiz muito. fui a menina do olhar baixo, das mãos entrelaçadas, das unhas roídas, das pernas trêmulas, da boca travada, da testa enrugada. e eu permiti. permiti aceitar tudo o que nunca faria com alguém. mas também já fui a menina do olhar fixo, das mãos abertas, das unhas vermelhas, das pernas sobre saltos 15. que conseguiu muito só com um sorriso. que ganhou tudo e com o tudo fez muito. que entendeu que a vida é mesmo assim, pintada por tintas misturadas, recortada à navalha, machucada por desencontros, transparente como vidro, incontrolável, faminta, agressiva, escorregadia e incrível. incrível por ser tão imprevisível.

e eu só quero mesmo é ser assim, produto da reinvenção, hipérbole personificada, conflito de gerações, sorriso de figurinha autocolante, frescor de perfume cítrico. só não quero permitir mais você aqui, bagunçando tudo o que não deveria tocar. muito menos um olhar para mim você tem o direito de lançar. porque eu permito a minha liberdade, o meu casamento com a sorte, a vida mais arriscada possível que eu puder ter. eu permito a minha vida como ela é. e agora, tanto faz você.

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