para fazer dar certo

ylenia martellinio-matic

há quem prefira riscos feitos à lapiseira de grafite 0.3, bem fininhos, definidos com precisão e que podem facilmente ser apagados com borracha sem manchar o papel. já eu gosto mesmo é dos riscos à mão livre. daqueles traçados com força. muita força. e ainda escolho caneta azul e papel vegetal, que é para marcar de vez – e para sempre. que é para levar os meus dedos ao limite do esforço sem que haja volta. sem que haja plano.

eu não faço riscos pré-definidos. não quero medir sua espessura. eu quero riscos, todos os que puder traçar. que é para a minha vida transbordar histórias. que é para os meus cadernos se encherem de palavras e de pessoas. das mais diferentes, das mais corajosas, das que têm o pulso firme. amo viver as fases que puder com o máximo de traçados inimagináveis. de corações livres. de memórias engavetadas e devidamente separadas. porque a vida é mais legal quando se traça riscos reais. leves ou pesados são eles que nos trazem as soluções das equações mais malucas que surgem diante do nosso quadro negro.

o que mais tenho de importante vem dos riscos. lembro com orgulho dos meus traços trêmulos que se tornaram linhas perfeitas. dos meus traços longos que se embolavam vez ou outra e, com muito afinco, voltavam a desenhar um caminho linear e possível. os meus traços são únicos. os seus também. e todo dia eu começo um risco novo, continuo outros que já quase não cabem mais no quadriculado, no pautado, no esbranquiçado. e quando o papel acaba é simples, é só começar um risco outro. mas dessa vez com o ponto de partida diferente. porque somos só o pó no cantinho da porta, um pingo de chuva no verão, mais uma 3×4 na loja de fotografia. só tenho a minha alma e um pedaço de chance para aceitar quando o arco-íris reluz na minha bolha. como não querer andar pelas cores? nunca perderei as chances. até aquelas que brincam comigo e são de mentirinha, afinal, elas existem para nos lembrar que é muito bom tentar. e melhor ainda quando tentamos e dá certo. e o certo só vem quando tudo dá errado.

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