nova absolvição do mundo

rekha garton

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já perdoei o mundo pelos cacos de vidro que se acumulam pelas calçadas. pelas moscas que caem nas tortas com calda de caramelo. pelo bico fino do sapato mais bonito que prensa os meus dedos. pelo relógio acelerado. pelas grades que instalaram na minha janela. pela ausência dos outros. pela minha ausência comigo mesma. pelos engarrafamentos que acontecem quando chove. pelo arroz sem alho refogado. pelos anéis largos. pelo garfo torto do restaurante. pela solidão quando assisto um filme bonito, quando vejo o nascer do sol mais frio, quando lembro da frase que rima. pela bateria fraca. pelos cigarros que acabam na caixa sem aviso. pelos chinelos perdidos. pelas canetas estouradas na mochila. pelas pessoas que se vão sem nenhuma cerimônia. pelas pessoas que chegam sem convite e ainda bagunçam tudo. pelo final de semana chuvoso no final de semana. pelo meu joelho contundido. pelos dedos encostados na comida. pela ignorância de uma população inteira. pelos meus sonhos despedaçados por tão pouco. pelo travesseiro que dá dor na coluna. pelas folhas caídas. pelo meu cansaço. pela melancolia que aperta os meus olhos. pela raiva que atravessa o meu peito. pela saudade que me lembra o por quê de eu estar aqui e não lá. pelo medo de ficar. pelo medo de ir. pela quantidade de erros que acumulei por uma estação. pela vontade de atravessar a ponte a que não cheguei. pelo pedaço de céu que perdi enquanto deixei a cortina fechada. pela água fria que corta a pele como faca. pelas escadas intermináveis do prédio antigo. pelos passarinhos que comeram as migalhas de pão e me fizeram perder o rumo do caminho de quando tudo estava perfeito.

só que agora, mundo, eu não preciso mais que você me perdoe.

espaço injusto entre a minha força de vontade e a maldade que descende do mundo. trechos escusos de uma porção de desejos ingênuos. dor crescente de um tropeço na subida, que acelera o meu peito e abrevia o meu passo – mas que não me tira da linha de chegada. por abraçar o mundo já senti os braços doídos. por pensar no distante já perdi os sentidos. perdoei tudo ao meu redor menos meu coração, que de tanta luta já perdeu a razão. a hora de recomeçar já acabou: vou é me desfazer inteira que é para completar o final.

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