perder-se

christoph hetzmannseder122879625

eu não saberia apontar o dedo e indicar para quando foi que me perdi.

pode ter sido no dia em que o meu ursinho perdeu um dos olhos marrons. no dia em que eu me escondi embaixo da cama porque, na sala dominada pelo irmão e sua turma de pirralhos, passava na tv um cara com o rosto lotado de pregos. no dia em que a minha mãe me deixou sozinha de mãos dadas com uma mulher de saia rodada e batom vermelho a qual todos chamavam de tia edna. no dia em que saí com o cardigã branco e caiu a maior chuva que belo horizonte jamais havia testemunhado. no dia em que me desapaixonei dos 5 anos mais intensos que tive em apenas 5 minutos. no dia em que reli sua carta e percebi que havia interpretado tudo errado na época. e perdido muito tempo com isso. no dia em que vi meu herói chorando copiosamente diante de uma chave de carro partida ao meio esquecida na avenida de seis pistas. no dia em que vi o carro estraçalhado por uma pilastra na avenida do contorno. no dia em que vi o par de olhos mais azuis se tornarem vermelhos em segundos de perversão e contradição.

eu não sei qual foi o dia. sei que me perdi em um, mas nem palpite para dizer qual eu conseguiria. não sei dizer o que me fez desistir dos sonhos mais bonitos que desenhei no caderno de caligrafia da escola. só sinto que esqueci disso tudo há um tempão. disso eu sei que sim. e já não ligo para isso há tempos porque, por algum motivo, eu enxergo a minha vida mesmo assim, do jeito que ela exatamente é. algo sempre me diz que, sim, é isso mesmo o que deveria acontecer. e eu dou saltos gigantes pelo passar de slides das novidades, dou sorrisos frenéticos diante de tudo o que eu nunca ouvi falar. talvez eu me encontre nos desencontros, não nasci para ficar quieta, não romantizo com o quieto, não tolero olhos fechados nem esparadrapos remendados, muito menos migalhas pobremente caídas por sopros fracos.

desprendi dos dias e seus fatos. abandonei lógicas e suas máximas. questionei um universo inteiro que se revela cada vez mais puro e simples de ser apreendido. perder-se é encontrar-se no escuro, no vazio, na multidão, no impulso, na razão, na fuga, na ida e na vinda, no lugar mais improvável de um mapa milimetricamente pensado, no lugar mais provável de um mapa sem começo nem fim, na cena menos querida, na rua mais suja, no banco quebrado, na geleira, no impossível, no indivisível, no espelho que encaro todo dia.

hoje não é mais latente a busca pelo o que de mim ficou perdido. muito menos o desejo de concretizar os rabiscos infantis. vivo o que tem que ser vivido. e com a maior boa vontade do mundo, por mais estranho que isso possa parecer, por mais frio que você possa vir a pensar que seja. sei que um dia me perdi e aprendi que isso pode ser divertido. deve ser porque eu procuro pelo que for que tenha que ser, desde que seja para que eu possa me perder mais uma vez por aí.

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