flores murchas

yamada taroo-matic

cultivar flores pretas é como silenciar a vida por abafar o desejo mais profundo. acostumar com o insonso, com o pouco, com o arenoso e assim abafar a energia do que pode vir pela frente. fechar os olhos para o erro que, com a maior força que tem entre os dedos, aperta meu coração até ele se dissolver em estado líquido. enganar a mim mesma dizendo repetidamente que, não, sua decisão é muito normal – e até mesmo libertadora. não. isso é cultivar cadáveres, manter aceso um sentimento incógnito que só serve para apontar culpados. desmentir valores definidos em forma de palavras bonitas. assassinar livros e seus preceitos encorajadores. rasgar todas as cartas de amor que marinheiros enviavam às suas queridas.

ela foi a farsa em forma de perfume de amora. de sorriso largo. esconder sentimentos era sua especialidade e falar pensamentos contrários ao que sentia era o precipício. desencontros. momentos bonitos que não são vistos como deveriam ser (ou pelo menos mereciam). machucados latentes que lembram um pouco mais sobre dias perdidos. energias desperdiçadas. valorizar quem não merece. apoiar mentes frias e calculistas. perder-se entre fantasia e realidade. manchar a própria honra como se esquece de tudo o que aprendeu até aqui.

isso é cultivar jardins tristes. sempre infestados por fracassos. por incoerências. por falta de limites. e este tipo de paisagem é comum. é o que mais se vê por aí. porque sempre é mais fácil fugir do que semear folhas coloridas que podem cair no primeiro vento forte da estação.

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