quando o muito é demais

carolyn hebbard163430441

fazia tempo que não falava sobre alguém. mesmo tendo talento para enxergar nos outros tudo aquilo que ninguém nunca vê. talvez seja porque gostava de observar. de traçar semelhanças. de correlacionar sinônimos. ou só porque quis ter tempo para isso, mesmo. para ele, a vida cansa. são sempre muitas horas, muitos dias, muitos relatórios. são muitos “bom dia”, muitos almoços, muitas reuniões. e também é sempre muita gente. muita, muita gente. pessoas demais, sempre. tem a menina do caixa, o menino da moto, o moço do chiclete, o senhor do táxi, a mulher da sala ao lado, o homem do bigode torto, as crianças do apartamento de baixo, a mulher da saia lápis, os conhecidos. sempre um tantão de conhecidos. e muitos pés, muitos ombros, muitos olhares.

ele podia ter falado sobre ela há mais tempo. mas simplesmente não falava, mesmo tendo muita informação. muitas palavras. muitas falas. muitas promessas. muitos pensamentos. daqueles que puxam uma coisa que leva à outra que leva à outra e assim adiante. e sempre que acorda ele vê uma parede branca que, de tão infinita, nem vontade de jogar tinta azul dá. nem rosa. nem amarela. é difícil. ter uma vida em branco às vezes complica tudo. simplesmente porque ela está assim, zerada. e com muitos “muitos” à sua volta, mas nunca dentro dela mesma.

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♪ para ouvir lendo ● the man who sold the world – david bowie

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