por assim dizer

tara mooreo-matic

e então abriu os braços. contraiu a boca em mínimos movimentos e esboçou o que seria uma declaração desajeitada de afeto. elaborou um mundo de momentos em forma de frases curtas, todas relembrando a última viagem de verão, os abraços motivados pelo final de noite, as risadas desastradas que vinham com as memórias escolares mais escondidas, tudo aquilo que via diante dos seus olhos e suprimia há muitos anos por pura mania. hábitos que criamos com o passar do cotidiano. com o passar do medíocre. com o passar do acúmulo de conhecimento.

mas teve suas palavras esmagadas pelo próprio descontentamento. recuperou-se em segundos ao perceber que, não, nunca deve haver lugar para o engano que é desistir do seu ato mais trabalhoso, mais corajoso, mais bonito. enfim se recompôs. pegou a esperança pela mão, ávido por um início. uma chegada que ainda permitia não prever a partida.

abriu os braços. apertou bem firme os olhos. procurou ao redor por um sinal em busca de um senão. satisfeito por ter ido tão longe para atar os laços que tentava criar ali, sem vislumbrar medos, decidiu seguir adiante. trocou o esboço do seu amor por uma arte final. sem esperar pela confirmação do recebimento fechou os braços e sentiu a si mesmo. sentiu a certeza de que já não vivia mais no vazio da incerteza.

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♪ para ouvir lendo ● american baby – dave matthews band

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