inventei um amor

cesarr t.

o-matic

inventou um amor pra si mesmo. daqueles que não têm motivos pra existir. que não tem pra quê nem por que. que não deveria nem ser cogitado, na verdade. é aquele amor que é oficializado em uma conversa com os amigos. aquele que você descobre sem querer, quando está em um momento dos mais improváveis. quando está vivendo a sua vida e simplesmente se toca de que, puxa, aconteceu alguma coisa ali.

aconteceu comigo. sentei na cadeira do cinema. aguardando o filme, se aproxima uma pessoa aleatória. ela tem o mesmo perfume que você. não é o seu cheiro único que se soma ao perfume, mas é a porra do perfume. e eu fico o filme inteiro pensando que você é quem deveria estar ali ao meu lado e não aquele menino do boné com um bordado ridículo. perco detalhes do filme. sinto raiva do menino do boné com um bordado ridículo injustamente. o cinema se transforma em chacina.

aconteceu comigo outra vez. estava em um jantar. olhando as velas e suas luzes, de repente, vem a lembrança de você com um isqueiro. e nem tem isqueiro por perto no lugar. mas a luz lembrou você, a porra de uma luz agora me desconcentra. e eu fico o jantar inteiro pensando que você é quem deveria estar ali dividindo o tiramisu comigo. perco o melhor do jantar. o restaurante se transforma em açougue.

esse é aquele tipo de amor que não é bem amor porque existe há pouco tempo. acabou de ser inventado e já atrapalha a vida da gente. é aquele tipo de amor que só virou amor porque parece ser impossível. daqueles difíceis que, só pra vadiar, ficam encrustados no peito da gente – e fazem questão de sufocar, amassar, despedaçar o que resta de dignidade, o que deveria ser convertido em razão, o que deveria ser melhor aproveitado para uma vida de possibilidades.

amores inventados que invertem o sentido das coisas. sentimentos inventados que dão aquele gelo na espinha. todos os participantes externos do caso dão dicas. conselhos. advertências. sonham sozinhos um sonho que talvez nem seja tão assim da gente mesmo. é a invenção que acham bonita. todos celebram a novidade – menos eu.

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♪ para ouvir lendo ● closer – nine inch nails

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